Há algumas décadas, sinais e sintomas se agrupavam na mente inquisitiva do médico que via, ouvia e, depois, realizava o exame físico do paciente; solicitava, se necessário, imagens radiológicas e poucos exames de laboratório possíveis que mais confirmavam do que esclareciam o diagnóstico já concluído. Receitar é arte quando acerta o alvo do diagnóstico realizado, e faz a profilaxia de efeitos colaterais ao evitar excesso de medicamentos.
Assim como Sherlock Holmes ficava satisfeito em desvendar os mistérios de um crime pela evidência da observação, também o médico do passado "festejava" sua argúcia clínica que o conduzia ao diagnóstico. A medicina rápida, atual, possui um protocolo de exames de imagem e laboratório que satisfaz o paciente por se achar bem avaliado, porém, não examinado; o problema é frequente quando todos os exames se mostram normais em desacordo com as queixas relatadas. A especialidade restrita visa possibilitar a atualização do médico diante da avalanche de novos conhecimentos; no entanto, tantas vezes o sofrimento físico do paciente se origina na mente, sendo mais global do que local.
No mundo apressado em que vivemos, existe uma voz imperativa atrás de cada um de nós dizendo: 'você pode e tem de dar conta do recado'. O psiquiatra C.G. Jung disse: "A pressa não é do diabo; ela é o diabo"; o "coisa ruim" sabe roubar o nosso tempo com suas maldades, e faz da nossa vida um "inferno". Na missão apressada de cuidar dos outros, sendo médicos, nos esquecemos do nosso próprio cuidado. As retas da obrigação necessitam ser aliviadas com as curvas do prazer, senão iremos alcançar as metas "com a língua de fora".
Slow Medicine foi criada exatamente para tentar resgatar a medicina tradicional, baseada na relação clara, honesta e respeitosa entre médicos e pacientes. O doutor Galvão, da extinta Blue Life, ao avaliar o desperdício da Fast Medicine, dizia: "95% dos exames de laboratório são dispensáveis, e 50% das cirurgias não são necessárias".