A prisão do ex-presidente da República, Michel Temer (MDB), ontem pela manhã em São Paulo, escancara uma realidade cruel visualizada por dois extremos. O primeiro, de caráter mais constrangedor para o brasileiro, revela que mesmo os políticos mais graduados não se acanham ao se envolver em tramoias, cujas finalidades, no frigir dos ovos, são a vantagem financeira e o benefício pessoal. Para refrescar a memória - se é que exista necessidade para isso -, o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai completar um ano atrás das grades, em Curitiba, no próximo mês. Ambos são indiciados pelas investigações da longeva operação Lava Jato, que no Brasil já virou sinônimo de punição.
O outro extremo é mais animador. Deixa claro que o Ministério Público e a Polícia Federal são órgãos atuantes dentro de um quadro sombrio de tudo o que envolve a máquina do governo. Enquanto a maioria dos departamentos e setores administrativos funciona a passos de tartaruga, os núcleos operam a todo vapor, agradecendo o leque de opções que a classe política tem oferecido. Também o poder Judiciário está resgatando, nos últimos tempos, o seu papel de instituição confiável ao condenar à prisão os protagonistas de crimes do colarinho branco. Os processos de julgamento ainda são lentos e cheios de recursos, mas as decisões seguem a coerência das provas e o desejo popular. Resumindo: quem sai da linha, é preso, julgado e, se condenado, vai para a cadeia. Simples assim.
Se pelo menos os fatos não comprovam de forma definitiva que o país abandonou o submundo da corrupção, eles servem para engordar a conta dos precedentes jurídicos. Os políticos e administradores em geral já começam a perceber que nem tudo é permitido no campo das falcatruas e que, no menor deslize, a casa cai. A prática da delação premiada também está colaborando para facilitar a investigação. A partir do momento em que os assessores mais próximos não demonstram nenhuma fidelidade aos superiores, fica evidente que ninguém mais é confiável. Sem poder contar com cúmplices e com a lei endurecendo a cada dia, o crime fica mais distante da compensação.