A democratização do local vem também de outra ideia de Lina, esta para o espaço expositivo. Grandes áreas abertas fazem com que os quadros saiam das paredes e flutuem em seus cavaletes de vidro, desenvolvidos pela arquiteta, que estavam presentes em 1968 e foram retomados pela atual administração do Masp em 2015
"Você caminha por dentro das pinturas e o nome do autor da obra não está na frente", lembra Ferraz. "Na Europa jamais se ousaria assim." O professor Guilherme Wisnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, explica: "A Lina criou um modo radical; com a legenda no verso, cai a febre do reconhecimento", esclarece. "A pessoa não vê se o pintor é importante, é um embate entre espectador e obra, sem intermediário".
A ousadia e dedicação de Lina Bo Bardi para o projeto do Masp vem desde o início. O museu já funcionava desde 1947 num prédio na rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. Foi brevemente para a Fundação Armando Álvares Penteado na década de 1950. Mas, com um acervo cada vez maior, Pietro Bardi e Assis Chateaubriand decidiram construir uma sede própria.
O terreno escolhido, doado à prefeitura de São Paulo, era ocupado por um belvedere, projetado por Ramos de Azevedo e demolido em 1951. Lina teve papel fundamental nesse movimento. "Ela articulou a cessão do terreno e participou das negociações", afirma Toledo, um dos curadores de uma exposição sobre a arquiteta que vai passar pelo Masp e também pelo Museu Jumex, no México, e pelo Museu de Arte Contemporânea de Chicago no ano que vem. "Dentro do contexto temático do ano que vem, achamos por bem fazer uma exposição que mostrasse as diferentes facetas da Lina, arquiteta, design, editora, curadora e educadora."
Bo Bardi fez outros edifícios icônicos como o Sesc Pompeia, em São Paulo, e o Museu de Arte Moderna da Bahia, mas o prédio do Masp figura entre suas mais grandiosas obras. A ideia do Vão Livre, com vista para a Avenida 9 de Julho, é, talvez, a parte mais marcante da construção, cujo trabalho de engenharia dos pilares de sustentação ficou a cargo do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz.
O processo de construção não foi fácil, segundo Marcelo Ferraz. "Mas ela levou a ideia de criar um museu de arte contemporânea".