Quem trabalha com produção de texto nunca enfrentou um apagão de ideias diante de um conteúdo que precisa ser publicado? Na época em que atuei na redação de jornal impresso e no rádio, vivi algumas situações assim. Mas, como escritor, esse fenômeno vem se intensificando. Por diversas vezes, paraliso ao perder uma ideia, olhando o teto em busca do que escapou. 

Quando a informação retorna, preciso correr para anotá-la no bloco de notas do celular ou no meu inseparável caderninho de ideias. Não raro, deixo minha esposa, meus filhos e amigos falando sozinhos, ou abandono atividades domésticas pela metade, por exemplo, quando saio da cozinha em pleno preparo do almoço, apenas para registrar a inspiração que voltou. 

Aqui em casa, todos já se acostumaram com esse comportamento. Ainda assim, me incomoda a recorrência dessa imprevisibilidade da inspiração e a necessidade constante de dar tempo ao tempo em que ela apareça, muitas vezes à custa de deixar de lado compromissos e tarefas importantes. Conversando com colegas e amigos psicanalistas, compreendi que esse comportamento não se trata apenas de distração ou excesso de criatividade.

Embora um diagnóstico exija maior aprofundamento, é possível que eu esteja diante da conhecida síndrome da página em branco. Também chamada de “bloqueio criativo”, trata-se de um fenômeno caracterizado pela incapacidade temporária de iniciar ou dar continuidade à escrita, geralmente acompanhada de frustração e ansiedade. O sintoma costuma estar associado ao perfeccionismo, ao medo do julgamento, à limitação de repertório ou mesmo ao despreparo diante da atividade proposta. 

Ele se manifesta quando o criador do conteúdo percebe que suas ideias não conseguem fluir do pensamento para o papel ou tela. Em uma autoanálise, identifico que o medo do julgamento e o perfeccionismo, são aspectos que preciso elaborar, assim como a minha fixação de deixar os meus textos pontualmente com dois mil caracteres e o vídeo com um minuto.


Marcelo Barbosa é jornalista, pedagogo e psicanalista. Autor da trilogia “Favela no divã” e “A vida de cão do Requis”.