Não existe jornalismo isento. Essa é uma das verdades mais elementares, embora pouco admitida. Como qualquer discurso, a narrativa jornalística não é objetiva e nem consegue se manter impermeável às ideologias e às visões de mundo a partir das quais é produzida.
Sendo, por definição, subjetivo, o jornalismo precisa se ancorar em alguma base sólida para que tenha validade e possa ser apresentado como um relato digno de consideração. A base sobre a qual toda produção jornalística deve se fundamentar é o interesse público. Por maiores que sejam as divergências entre os diversos relatos e opiniões, todos devem se orientar pelo interesse público.
Na última semana, dois relatos jornalísticos disputaram a atenção do público na internet e na TV. De um lado, o site The Intercept, dirigido pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald, casado com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), que passou a publicar conversas entre membros da Lava Jato e o então juiz Sergio Moro, titular da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, responsável pelo julgamento dos escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras. As conversas mostram uma relação promíscua entre membros do Ministério Público e o juiz responsável pelo julgamento. Ontem o ex-juiz Sergio Moro admitiu que, "por descuido", indicou testemunha aos membros da Lava Jato. É mais que descuido. É crime.
Outro relato, o do grupo Globo, ignora completamente o teor das conversas e investe contra o vazamento, alegando tratar-se de hackeamento. Encampando uma moralidade que desconhecia quando os vazamentos eram de seu interesse, a rede Globo, empresa detentora de uma concessão pública bilionária, dá demonstrações de preferir que os fatos sejam abafados e que os bastidores da LavaJ ato sejam afastados para longe dos olhos da maioria dos cidadãos.
O contraste é tão grande que qualquer pessoa minimamente razoável logo percebe que a decisão do The Intercept coaduna muito mais com o interesse público que a postura da Globo.