"Podia não ter acontecido, né? Foi uma falta de sorte acontecer exatamente na hora de um evento mundial". Alguém desinformado que ouvisse o general Augusto Heleno proferir tais palavras, jamais suspeitaria que ele se referia à prisão do sargento da Aeronáutica, Manoel Silva Rodrigues, membro da tripulação que seguia no avião presidencial de apoio à visita oficial ao Japão, preso na Espanha com 39 quilos de cocaína pura. "Foi um fato muito desagradável", arrematou Heleno, optando pela expressão "fato" para não admitir que tem sob sua responsabilidade, no GSI, um rumoroso caso de tráfico internacional de drogas numa aeronave da FAB a serviço da presidência da República.
A Imprensa nacional também enveredou pela dissimulação, evitando ao máximo caracterizar o "fato" como tráfico de drogas. Aliás, Estadão e O Globo trataram o caso como algo indigno de manchete, relegado a áreas mortas da capa. Já a Folha produziu a higiênica manchete "Sargento preso com 39 quilos de cocaína constrange Planalto", que não fede nem cheira.
Coube à Imprensa internacional dar ao fato a relevância que tem. O britânico The Guardian cravou: "Aviador da delegação do Brasil no G20 é detido por tráfico de drogas". O francês Le Monde batizou o avião presidencial de Aerococa. O New York Times, diário mais influente do mundo, cravou: "Pó branco, rostos vermelhos: a carga de cocaína a bordo do avião presidencial".
É interessante perceber o quanto autoridades e Imprensa nacional se mostram cheios de pruridos quando as apreensões ocorrem longe da favela. Quem não se lembra do helicóptero de um senador apreendido no ES com 500 quilos de cocaína, e do avião com outros 500 interceptado pela FAB depois de decolar da fazenda de um ex-governador matogrossense?
Já quando algum morador da favela é surpreendido com cerca de 30 gramas de droga, os jornais não hesitam em estampar: "Traficante tenta despistar a polícia e é preso com 25 trouxinhas de cocaína".
Pobre não tem direito a dissimulação nem clemência.