No sábado passado, o Estadão publicou um artigo dos senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e Márcio Bittar (MDB/AC), intitulado "Mitos e Falácias", no qual, com argumentação primária, eles se propõem desautorizar décadas de pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, denunciando-as como "discursos apocalípticos" que visam "barrar o progresso". Dias depois, o ministro da Educação anunciou um corte de 30% na verba para as universidades e institutos federais de ensino, medida que, se efetivada, inviabilizará a pesquisa e o ensino nessas instituições.
Apesar da proximidade no calendário, não dá para afirmar que tenham sido ações orquestradas. O que não dá para ignorar, contudo, é que ambas as ações atendem ao amplo propósito de criar condições para uma nova-velha ordem na qual o interesse econômico se imponha sem qualquer constrangimento sobre o bem-estar social e até sobre as condições de vida. O duplo ataque visa, por um lado, remover os entraves legais à exploração irresponsável dos recursos naturais e, por outro, precarizar o ensino superior público de tal forma que aos interessados não reste alternativa se não correr para as instituições privadas. No caso do ensino, repete a estratégia dos anos 1990 que precarizou a rede pública fundamental e média.
Os sinais são inequívocos. Em dezembro, o então presidente eleito Bolsonaro disse que pretendia acabar com o que classificou como "festa de multas" do Ibama. A nomeação de Ricardo Salles, condenado em São Paulo em ação civil pública ambiental, mostra que o Ibama já foi neutralizado.
No campo da Educação, vai longe o tempo em que multidões engrossavam o cortejo do pato amarelo exigindo "escolas padrão Fifa". Naquele ano, 2014, o orçamento da pasta era R$ 11,3 bilhões. Os seguidores do pato venceram a eleição e colocaram no poder um governo que reduziu em 56% o orçamento da Educação, limitado, em 2019, a R$ 4,2 bilhões.
O desmonte está ocorrendo em todas as áreas. Não vê quem não quer.