No fim dos anos 1960, quando nos países centrais a sociedade começava a mostrar sintomas de pós-modernidade, o filósofo francês Guy Debord denominou como "sociedade do espetáculo" a tendência à espetacularização da vida. Para o filósofo, no capitalismo tardio o espetáculo subordina a vida humana - essencialmente subjetiva - à lógica da mercadoria, objetivando-a. Em outras palavras, as pessoas assumem o papel de mercadorias, e nessa condição são expostas (e se expõem) aos desejos e às necessidades funcionais de outros.
Ninguém se importa, pois estamos habituados a isso. De manhã, antes de sair de casa, escolhemos a roupa que vestiremos tendo em vista a agenda do dia e a impressão que desejamos causar. Selecionamos bens de consumo e locais para frequentar em função daquilo que acrescentam à nossa imagem, evitando escolhas que possam dilapida-la.
Neste contexto, raras situações são tão emblemáticas como um desfile para adoção de órfãos, ocorrido num shopping de Cuiabá (MT), na terça-feira. Na passarela, no lugar das modelos que apresentam as tendências da moda a olhares treinados para o consumo, meninas e meninos tentavam se mostrar vantajosos para a plateia. Organizado por uma tal Associação Matogrossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) e pela OAB-MT, a infeliz vitrine de crianças para adoção teve aval da Vara de Infância e Juventude.
O desfile no interior de um shopping center, onde mercadorias trocam de mãos na velocidade das maquininhas de cartão, desnuda a ética utilitarista que permeia a sociedade e põe coisas e pessoas no mesmo patamar. Quem sabe, sendo bem sucedida a adoção, a família, agora mais completa, pudesse entrar em algum home center, ali mesmo no shopping, para decidir a cor do quarto do novo integrante; ou, diante do insucesso na adoção, ainda restaria a possibilidade de um café gourmet na praça de alimentação.
Afinal, como alerta o pensador francês, "O homem cuja vida se banaliza precisa se fazer representar espetacularmente".