Uma reportagem publicada sem destaque nos portais de notícias devolveu ao Judiciário uma pitada de simpatia de quem milita na defesa da justiça e dos direitos humanos e que anda ressabiado com algumas decisões recentes. O feito, que subverte a máxima de Voltaire, para quem "o mal tem asas, e o bem anda com passo de tartaruga", deve-se à decisão da juíza Mônica Gonzaga Arnoni, da Vara da Infância e da Juventude do Foro Central de São Paulo, que negou ao Shopping Pátio Higienópolis autorização para apreender crianças pobres e entregá-las à PM.
O shopping localizado no bairro que lhe dá nome, bairro que em passado recente tentou impedir a construção de uma estação do metrô sob a alegação de que esta traria "gente diferenciada" às suas ruas, tentou obter na Justiça uma espécie de "salvo-conduto para efetivar no estabelecimento uma genuína higiene social", registrou a juíza Arnoni na sentença em que negou tal autorização. Nas alegações do shopping, as crianças e adolescentes "em situação de rua" promovem caos e perturbam a paz dos frequentadores habituais do local.
É realmente louvável a decisão da juíza, assim como o parecer do Ministério Público, que se manifestou contra a intenção do shopping apenas uma semana após a sandice higienista ser protocolizada no cartório do fórum. O que mais causa espanto, contudo, é que estabelecimentos se sintam no direito de institucionalizar a discriminação de pessoas em função da cor da pele ou do dinheiro que levam consigo. (O caso me faz pensar que talvez haja algum fundamento na tese de que o nome determina o caráter dos seres e das coisas).
Fossem outros tempos, é quase certo que o shopping lançaria mão do marketing social para enfrentar o contratempo. Entretanto, na época atual, em que altos dirigentes públicos parecem competir entre si quem é mais iníquo e tem maior desprezo pelo pobre, o estabelecimento pôs de lado a polidez e tentou resolver a questão sem meias palavras. Felizmente a Justiça se fez presente.