O ministro Sérgio Moro ainda nem terminou de corrigir sua proposta de pacote "anticrime" (existe pacote pró-crime?), que entre outras disposições amplia a aplicação da excludente de ilicitude por legítima defesa, admitindo que os policiais aleguem "medo, surpresa ou violenta emoção" quando suas ações resultarem em vítimas fatais, e na rua alguns policiais já se sentem autorizados a matar.
O ministro Moro negou que as propostas sejam "licença para matar", mas pelo visto de nada adiantou, porque todos sabem, incluindo os policiais e a bandidagem, que ele apenas está cumprindo ordens do chefe Bolsonaro, que em dezembro de 2017, durante a campanha, afirmou: "Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim". Na mesma ocasião também disse: "Nós vamos brigar pela excludente de ilicitude".
O recado foi assimilado rapidamente. Em 8 de fevereiro, policiais da PM do Rio de Janeiro mataram de uma só vez 14 pessoas. Eram bandidos, segundo relatos da própria comunidade, mas estavam encurralados e rendidos. Populares dizem que a maioria dos tiros atingiu as vítimas pelas costas, covardemente. Não haverá investigação, pois a cena do crime foi inutilizada pelos próprios policiais, que levaram consigo os cadáveres.
No dia 5, terça-feira, PMs agrediram uma mulher em Fortaleza com chicotadas, socos e chutes. Agressão gratuita, pois sequer houve acusação de crime contra ela. Em Praia Grande, um guarda municipal matou com três tiros um ciclista com quem havia discutido e na delegacia alegou "legítima defesa". No dia 15, PMs encapuzados circularam em Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, vasculhando ruas e vielas. A movimentação inusitada fez a população temer nova chacina.
Se a proposta de Moro for aprovada no Congresso, no país onde mais de 5 mil pessoas são mortas todo ano pela polícia, e onde um imenso número de policiais morre em serviço, sim, neste nosso país, a barbárie passará a contar com respaldo legal.