Propiciou-me a Internet, dia desses, feliz surpresa. O Facebook trouxe postagem de um primo, que não vejo faz tempo, onde resplandecia de rádio antigo, herança de meu avô materno.
De imediato, fui transportado a um tempo único, ao conforto de uma sala simples, guarnecida de mobiliário também sem luxo, onde, em um canto, imponente, ele pairava majestoso.
Final dos anos 50. No interior onde eu me dava às alegrias da infância, sequer se ouvira falar em televisor. O meio de comunicação obrigatório se restringia ao velho aparelho, com suas válvulas que brilhavam incandescentes.
Havia todo um ritual ao cair da noite. Reunida, a família se ajeitava, ouvindo o obrigatório "Repórter Esso". Depois, saciada a curiosidade pelas notícias, silêncio tumular e atenção redobrada, entregava-se ao deleite das novelas. "O Direito de Nascer", "Uma Voz ao Longe", tornaram-se ícones de um tempo; marcaram a história daquela época.
Parece que vivencio, embora o tempo, os momentos de tensão, os suspiros de alívio, o olhar enternecedor dos que me cercavam, quando "uma cena", própria à imaginação de cada um, reclamavam os gestos. Final do capítulo, aguardava-se ansiosamente o dia seguinte, para a continuidade da revelação desta ou daquela trama, para a renovação de um gesto de carinho.
Após isso, como que atendendo a uma ordem silenciosa, quase todos se recolhiam aos seus aposentos para o descanso necessário.
Na saleta restava meu nono, comunista convicto, que ocupava o restante do tempo com incursões pelos noticiários em português pela Rádio Nacional de Moscou, Rádio Nacional de Pequim, e Rádio de Berna.
Ocupando quarto contíguo, embora o som baixo do aparelho, só dormia ao fim das transmissões.
A saudade dos rostos amados que se mudaram para um distante Oriente; o som dos risos e das vozes que povoavam o meu pequeno mundo de então; o aconchego do colo da minha mãe naquelas ocasiões memoráveis; fez com que, embora a resistência, uma lágrima atrevida descesse pelo meu rosto.