Debaixo da lama levada pela represa de Brumadinho; do silêncio dos corpos cobertos pelo manto do descaso; brota estrondoso grito de acusação pela catástrofe que teimou em se repetir.
Ao lado de Mariana, e tantas outras que se encontram em situações quase que idênticas, as falhas expostas por "especialistas" apontam para a falta de manutenção, aliada ao descaso das autoridades públicas a quem incumbia zelar. Embora eles - "os especialistas" - apareçam aos montes quando se trata de desgraça que pelas suas dimensões ganham as manchetes e tendem a perdurar nos noticiários, neste caso, mesmo que a contragosto, há que se lhes atribuir razão.
O materialismo que tem identificado o Brasil faz com que triste jogo envolva os dirigentes das grandes corporações: obter o lucro maior possível, desconsiderando os fatos adjacentes.
E, nesse contexto, colocadas as cartas sobre a mesa, aos seus singulares juízos, vale a pena esperar pela catástrofe! Afinal, as indenizações, se por acaso o pior vier a acontecer, serão mínimas ante os ganhos que o trabalho ininterrupto ensejará, eis que, para se fazer reparos, além do dispêndio de dinheiro, necessária a diminuição da cadeia produtiva.
E tudo isso se passa aos olhos poucos fiscalizadores das autoridades públicas, que, conhecendo a torpeza dos atos, negligentemente a eles aderem, permitem que a farsa se prolongue, chancelando-as. Afinal, no jogo político do "toma lá da cá" quantos tostões tilintaram por sob essa ponte? Quantas negociatas, em troca de expensas para sujas campanhas eleitorais, aconteceram? Ou será que pode ser esquecida a criminosa venda da Vale, a que se encontra no olho do furacão, negociada por preço vil pelo governo Fernando Henrique por três bilhões de reais, quando, só de reservas minerais calculou-se que a empresa teria mais de cem bilhões?
Agora, porteira arrombada, em jogo midiático, se prende daqui e de lá, se acenam com sanções pecuniárias gravíssimas. As mortes, simples detalhes a serem esquecidas!
Debaixo da lama, os corpos inquietos e indignados acusam!