Vergonha, impotência, medo e até culpa são os sentimentos que carregam as vítimas de um crime que, mediante o uso da violência ou grave ameaça, retira a liberdade, dignidade e honra. Em que pese atingirem também homens e crianças, são as mulheres as mais visadas.
Me refiro ao estupro. Ato desprezível que, segundo pesquisas, ocorre em grande quantidade em nosso país, porém nem todos são notificados às autoridades devido ao receio das vítimas em serem desacreditadas, criticadas e até zombadas. As que se calam, procuram conviver normalmente entre amigos e familiares, contudo, no íntimo, carregam o peso do trauma, por vezes insuportável, levando-as, em alguns casos, a equivocada solução de por fim às próprias vidas. Os criminosos, na maioria homens, que podem ser conhecidos, desconhecidos, amigos e até familiares, desprezam a condição humana das vítimas, sendo capazes de extrema violência.
Conforme define Ilana Casoy, especialista em traçar o perfil psicológico de criminosos, os sádicos, os vingadores, os românticos, os dominadores e os oportunistas formam os cinco grupos de estupradores. Nos três primeiros, os criminosos são movidos a agir por transtornos psicológicos. Os ditos "dominadores" são os que convivem bem em sociedade, sempre adotando posturas de machão. Acreditam que a mulher se presta a ser violentada. Já os "oportunistas", num primeiro momento, não visam a prática do crime, contudo enxergam na situação indefesa da mulher a oportunidade de abusar dela sexualmente. Assim foi com Roger Abdelmassih e, recentemente, com João Teixeira de Faria, o "João de Deus", cujas vítimas, depositando a confiança em seus conhecimentos e a esperança de atingir maiores desejos, acabaram sendo covardemente molestadas. Ambos conhecidos, respeitados e influentes, tiveram as séries de crimes interrompidas graças à determinação das denunciantes, as quais, contando com o apoio de familiares e atenção das autoridades policiais, romperam as barreiras do preconceito e se livraram do estigma da culpa.