Mais do que uma simples disputa por espaço no mercado de transporte de passageiros entre uberistas e taxistas, o entrevero provocado pelas duas categorias nos últimos dias, principalmente em Mogi das Cruzes, traz à tona uma discussão mais ampla, que necessariamente passa pela evolução na forma de prestar o serviço. Na quarta-feira, o prefeito Marcus Melo (PSDB) sancionou a lei que regulariza o transporte por aplicativo. A medida deve colocar na legalidade perto de mil profissionais que já atuavam às sombras no município.
No mesmo dia, os taxistas se reuniram com o presidente da câmara, Pedro Komura (PSDB), para agendar um encontro com os parlamentares na tentativa de rever a lei que, segundo avaliação da categoria, a coloca em condições de inferioridade no embate. Na véspera, um grupo de motoristas da região fez uma carreata de protesto pelas principais ruas da cidade buscando sensibilizar a população e angariar forças para a sua causa. A reunião está marcada para hoje, às 16 horas.
Os dois lados têm as suas razões. Os taxistas tiveram exclusividade na prestação do serviço durante décadas e se acostumaram com a rotina de trabalho segura, pontos fixos e corridas tabeladas, sem concorrência. Em parte, a classe se acomodou, construiu uma clientela fiel e acreditou que tudo caminharia bem. Porém, os tempos mudaram. A tecnologia e a agilidade no transporte exigiram um novo tratamento, mais rápido, eficiente e, acima de tudo, mais barato. Uma corrida de Uber chega a custar, em determinados percursos e horários, menos da metade de um transporte por táxi. Não dá para competir.
Há também a mudança do perfil do consumidor. Os mais jovens estão adaptados na linguagem dos aplicativos, visualizam no celular o custo de uma corrida, tempo de espera pelo chamado e identificam o veículo que prestará o serviço. Os taxistas, por mais empenho que possuam, não conseguem oferecer estas condições. O fato é que a concorrência está aí e o modelo é irreversível. O grupo vai lutar pelos direitos adquiridos, mas precisa rever os seus conceitos para não se transformar, em breve, em categoria extinta.