Na véspera do dia da Consciência Negra tive que explicar a um jovem engenheiro que a ideia de minorias sociais não diz respeito à representatividade numérica dos grupos humanos, mas ao acesso à cidadania. Assim, embora 55,4% da população se autodeclare negra e parda, são minoria em direitos.
A dúvida sincera do meu amigo e de muita gente em posição semelhante é alimentada por pessoas e grupos dispostos a manter o racismo fora do debate público. Num vídeo antigo, que circula nas redes, o ator norte-americano Morgan Freeman defende que se as pessoas não falassem sobre racismo o racismo não existiria.
Os discursos que tentam dissimular as atrocidades cometidas contra os africanos e seus descendentes se renovam no ritmo das gerações. Na campanha presidencial deste ano, o então candidato Jair Bolsonaro (PSL) chegou a afirmar que os portugueses sequer haviam pisado na África, isentando-os de responsabilidade pela captura de homens, mulheres e crianças e a transformação desses em escravos. No século XVII o padre jesuíta Antônio Vieira (1608-1697) pregava aos escravos baianos que estes deviam dar infinitas graças a Deus por tê-los tirado de seus lugares de origem, "onde viviam como gentios", e trazido-os ao Brasil "onde tinham oportunidade de ser instruídos na fé".
As estatísticas, contudo, menos afeitas à subjetividade, teimam em expor aquilo que os discursos procuram escamotear: de cada cem pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras (Ipea/FBSP); 63,7% das pessoas que não encontram trabalho são negras ou pardas, e quando conseguem emprego, recebem em média 44,75% menos que a população branca (PNAD/2016); as chances de um branco preso em flagrante ser solto ao ser apresentado ao juiz é 32% maior que a de um negro, revela pesquisa feita pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro em 2016.
Neste cenário, é justo que ao menos um dia do ano seja dedicado à consciência sobre o papel do negro na sociedade e à denúncia contra os maus tratos cotidianos.