Revela agudo desconhecimento da realidade a comemoração de alguns setores da sociedade ante a decisão do governo cubano de chamar de volta ao país os médicos que aqui atuavam desde 2013, inseridos no programa "Mais Médicos".
O país perderá cerca de 8.500 médicos que atuavam de forma competente onde os profissionais brasileiros nunca quiseram ir. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Pesquisas Sociais e Políticas Econômicas de Pernambuco, envolvendo 14 mil usuários do "Mais Médicos" residentes em 700 municípios, revelou que 95% dos usuários se declararam "satisfeitos" ou "muito satisfeitos" com a atuação dos médicos do programa. Cerca de 63 milhões de brasileiros dependem do "Mais Médicos".
Num país em que o total de profissionais formados anualmente atende apenas 65% da demanda, com déficit de 54 mil postos de trabalho, os cubanos farão falta principalmente nas cidades mais pobres e afastadas. Uma avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o "Mais Médicos" em 1.837 municípios destacou que o programa aumentou em 33% as consultas mensais de atenção básica e em 32% as visitas domiciliares de médicos. Não é pouca coisa.
Em nota, a embaixada cubana informou que os médicos daquele país já atuaram em mais de 164 nações, enfrentando ebola na África, cegueira na América Latina e no Caribe, cólera no Haiti, desastres e epidemias diversas em localidades como Paquistão, Indonésia, México, Equador, Peru, Chile e Venezuela. Na maioria das missões as despesas são custeadas pelo governo cubano. Nos casos de atuação mais prolongada, como no Brasil, os governos locais dão uma contrapartida financeira à estatal responsável por pagar o salário, custear as viagens, a alimentação e a moradia dos profissionais, e assistir as famílias enquanto eles estão distantes.
Foi tudo isso que as exigências despropositadas do presidente eleito pôs a perder, sem nenhum plano de reposição dos profissionais que se vão. Não há nada a comemorar.