Para que os olhos do espírito se tornem penetrantes é necessário que os da face se enfraqueçam: todo julgar é comparar! Claro, na vida cotidiana é preciso fazê-lo com frequência: mesmo como princípio tácito da moral. É, também, o princípio da política.
Não se trata evidentemente de renunciar nem a uma, nem a outra. É também o princípio da arte, ao qual, também, não se deve renunciar. Existe moral sem recusa? Política sem confrontação? Arte sem avaliação, sem crítica, sem hierarquia? Tudo se insere na realidade, se assim os menos despertos quiserem simplificar. A arte existe, e nada de se queixar por isso! Toda arte que mereça esse nome promove o belo.
O belo pode reformar a moral, aperfeiçoar a política e se aproximar do absoluto. O belo e o feio, o admirável e o medíocre, são tão prisioneiros do relativo quanto o é o mal proposto pela moral, e o possível ao passar pela política. O belo, o bom e o possível não passam de caminhos. O trabalho não passa de um caminho: para ir aonde à custa dele? Aonde levam todos os caminhos, que contém todos eles e que, jamais serão um!
O bem e o mal, o belo e o feio, o justo e o injusto só existem para e pela humanidade. Pelo que encerram de humano! Como a música ou a poesia poderiam abolir as pausas, o silêncio, se elas as envolvem, se elas o cantam e o supõem? Como a moral e a política poderiam abolir o real que a contém e que elas insistem em transformar?
Um outro mundo é possível? Certamente, mas nem por isso deixará de ser mundo, e não um sonho de militante político, de filósofo moralista. Somente o real é real que contém todos os juízos e a arte real! Da qual só iniciados se beneficiam, infelizmente!
Não disse antes, mas a arte de julgar é de longe a arte mais difícil de praticar, principalmente quando tem por obrigatoriedade excluir do processo a ignorância. Por meio de subterfúgios a atropelar a Vida, o próprio Ser que existe no eterno domínio do Já e do Agora. Encontrar essa Vida é o único caminho para se chegar ao Um!