a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu... Dentro da mais completa mineirice, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu o poema José, em 1942, para retratar o sentimento de um sujeito que está perdido, sem saber que rumo tomar. A partir de janeiro de 2019, quando Jair Bolsonaro (PSL) receber a faixa presidencial, impulsionado e credenciado por 57.797.423 votos, um misto de sentimento de euforia e solidão vai invadir o seu íntimo. Por um lado, saber que o povo o escolheu para comandar o país pelo próximos quatro anos; mas, por outro, no silêncio de sua consciência, ele vai se perguntar: E agora, Jair?
O exercício do poder é uma tarefa completamente diferente das nuances de uma campanha política. Jair encontrou até uma razão justificável para evitar o confronto de um debate, situação em que somente ele poderia sair perdendo. Como presidente, não há possibilidade de omissão. Um chefe de nação não tem direito à dúvida e tampouco a devaneios. Precisa de firmeza, rapidez e lucidez. Governar não é um ato isolado, autoritário e radical. Governar significa, acima de tudo, negociar. E em uma negociação, você cede, tolera. Jair está preparado para isso?
O presidente eleito declarou durante a campanha que iria governar para grupos majoritários; no domingo à noite, eleito, já mudou o discurso falando em governar para todos. Não há meios seguros de atender a todos durante o mandato. Nenhum governante consegue a unanimidade. É preciso fazer escolhas, optar por segmentos, agir pela amplitude das decisões, de forma contínua. Governos imediatistas naufragam na própria precipitação e comandos duradouros sucumbem à arrogância da eternidade.
Nos próximos dias, o capitão da reserva deve iniciar a montagem do ministério. Prometeu reduzir o número de pastas e indicar apenas técnicos especialistas, sem tendências partidárias. Sinalizou que vai colocar ao menos quatro militares em seu staff e que não vai negociar cargos em troca de apoio político. O presidente terá um início difícil e a urgência de encontrar o caminho menos acidentado para equilibrar a viabilidade do governo e a manutenção da palavra mais incisiva que o levou ao poder.