Os especialistas em análise do discurso - área da linguística que estuda a construção de um texto a partir de uma contextualização ideológica e social - estão de cabelo em pé com as mais recentes declarações dos candidatos à Presidência da República. Depois de alcançarem o segundo turno com posturas visíveis de direita e de esquerda, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) precisaram dar uma guinada para o centro, principalmente para reduzir os altos índices de rejeição e conquistar os votos necessários para a vitória no próximo dia 28.
Para isso, os dois oponentes mudaram a postura. Os discursos, porém, chegam a ser patéticos. Bolsonaro, por exemplo, após precisar desmentir o seu vice, general Hamilton Mourão, que criticou a existência do 13º salário para os trabalhadores, saiu com uma pérola econômica ao anunciar o 13º para o Bolsa Família, em nítida intenção de conquistar votos das classes mais pobres. É contraditório, vergonhoso, mas pela ótica política, ganha contornos de estratégia.
Já Haddad, orientado pelos companheiros, abandonou a insistência de defender Lula, o líder do partido preso em Curitiba. Também deu uma repaginada no logo de campanha, trocando o desgastado vermelho pelo patriótico verde-amarelo. Não há dúvida: o objetivo é amenizar a imagem de esquerda para ganhar fôlego na corrida eleitoral. Também é contraditório, vergonhoso, mas pela ótica política, igualmente ao seu opositor, ganha contornos de estratégia.
É aí que os analistas em linguística ficam chocados e incrédulos: como pode tamanha cara de pau em mudar o discurso, com clara demonstração de abocanhar votos, sem perder a coerência e a dignidade dos atos? A prática desse discurso flutuante, que atende às necessidades imediatistas, é uma afronta à inteligência do eleitorado. Existem coisas que não mudam simplesmente pela substituição de palavras mais duras por outras mais doces. A história de ambos presidenciáveis já foi construída há tempos, basta tirarmos as conclusões.
É preciso um pouco mais de respeito com o eleitor.