São amarelas, brancas, azuis, as cores dos plásticos que passam a se destacar de maneira sombria, na lúgubre capital paulista. Montadas sobre compensados, e adquirindo, por vezes, a feição de "casinhas" - daquelas que desenhávamos enquanto infantes - os barracos se proliferam por debaixo dos viadutos os mais variados.
Procurando se esconder do frio que tem castigado, e, ao mesmo tempo, quem sabe, manter a dignidade que lhes foi tirada, famílias fazem dos locais os seus últimos bastiões, se acomodam como dá, vivem noites indormidas no mínimo que lhes restou.
À falta de locais para a higiene básica; à míngua de sítios para suprirem suas necessidades; volta e meia se depara o transeunte com pessoas lavando-se em bacias, quando não, com outras, banhando-se em alguma fonte pública. Por mais que recebam um olhar de compaixão - o mais das vezes de curiosidade -, no momento seguinte já foram relegadas ao esquecimento.
Não recebem os afagos hipócritas de políticos em campanha; não têm as crias osculadas pelas bocas farisaicas de pretensos "representantes do povo"; desconhecem as promessas vãs dos mentirosos de ocasião. Afinal, são fantasmas sociais que teimam em sobreviver. Não constam dos cadastros públicos, em sua maioria; não votam, e por isso, "com eles não se perde tempo"!
Deles se lembra a "sociedade constituída", apenas, quando o grito burguês reclama da vizinhança de seus estabelecimentos, atribui-lhes as quedas das vendas. Párias, anseiam pela hora da passagem, quando, enfim, cessarão os sofrimentos, e receberão o latifúndio da cova rasa.
Silentes, os órgãos públicos a tudo assistem! Manifestam-se, é verdade, vez ou outra, quando, valendo-se dos corpos de segurança, usam de violência extremada para afastar dos centros mais visíveis, os que denigrem a paisagem urbana com suas vestes esfarrapadas.
Tempo bom em que sinônimo de pobreza era a casa triste com cadeiras na calçada, e na fachada escrito: "em cima que é um lar"!