O líder absolutista chegou a uma conclusão. Seu período no poder era tão importante que a história deveria começar naquele momento. Nada que lembrasse o passado deveria ser guardado.
O prestígio de seu governo, do país, o crescimento econômico, o esplendor das artes, atestavam que ele estava certo. Como de costume, o grupo dos que o circundavam aplaudiam. Uns por puro puxa-saquismo, outros por medo da ira do líder contra os que se dignavam a não acha-lo o mais importante homem da terra. Afinal a China era considerada o império do meio, e à sua volta apenas povos bárbaros, iletrados, incultos, viviam. Era preciso um ato heroico, de grandeza para dar início na nova era.
O imperador, Qin Shi Huang, mandou queimar os livros dos letrados. Para obter dos seus súbditos uma obediência incondicional, este imperador ordenou a destruição das obras dos confucionistas, acusados de subversão. Ele não teve dúvidas, mandou tocar fogo em tudo que pudesse relembrar épocas passadas. A memória nacional passaria a ser registrada do seu reinado para frente. O primeiro imperador da dinastia Chin, do século 3 a.C. fez uma imensa fogueira com os papéis de arroz. Aqueles que foram pegos escondendo livros pagaram com a vida. Alguns devotados decoraram textos ou conseguiram esconder alguns exemplares, e assim o pensamento de Confúcio, Lao-tsu e de outros filósofos sobreviveram. E o ditador de manto amarelo, finalmente, teve o seu lugar na história assegurado.
Hoje as bibliotecas não correm mais o risco de serem queimadas. Museus, sim. Graças a era digital as grandes bibliotecas cabem na palma da mão. Em apenas dois segundos ela contém toda a informação acumulada por séculos em Alexandria. Em dois dias a quantidade de dados que carregam todo tipo de informação equivalem a tudo que o ser humano produziu desde o início da civilização até os dias atuais. Não há mais necessidade de acumular todo o conhecimento em um só livro, prédio, cidade ou país.