O crítico e ensaísta Harold Bloom já questionou a noção de que "A Megera Domada" seja considerada uma peça machista e misógina. Em uma cidade em que as tragédias do bardo ocupam boa parte da programação anual, a comédia sobre Petruchio e Catarina está cartaz no Sesc Ipiranga. Nela, o diretor Aimar Labaki criou uma versão da obra para rever a relação conflituosa, e, muitas vezes, hostil, entre as personagens.
Na história, Catarina é a filha mais velha de um mercador e deve ser a primeira a se casar, antes da caçula Bianca. O alvoroço dos pretendentes sobre a mais nova promove um desafio no qual Petruchio deve desposar a megera, herdando parte da riqueza da família. "Harold lembra que a peça é a única, em toda obra de Shakespeare, a trazer um prólogo", diz o diretor. "Nele, está escrito que tudo o que se seguirá é teatro. O autor está chamando a atenção para o fato de que esta comédia é uma representação, e não uma fatia da realidade".
Isso não quer dizer que o riso está de mãos dadas com a violência. Durante a montagem, Catarina é destratada por aqueles que a desprezam e veem nela apenas uma guinada financeira. "O grau de violência contra a mulher vai de xingamentos até cenas de tortura. Ao reagir, Catarina está quase piscando para a plateia. São atrocidades de quem possui o poder e não precisa se pronunciar."
Diante de um ambiente favorável ao jogo cênico e à interpretação, os atores Agnes Zuliani e Rogério Brito se revezam nos diversos papéis da peça, sem que os gêneros das personagens imponham limites. "Eles criam algo como uma colagem de estilos e linguagens, além de viverem os dois protagonistas". Parte desta dinâmica que brinca com o duplo está no cenário: metade do palco está organizado com objetos contemporâneos e o outro lado, tomado por móveis antigos, como uma poltrona de teatro inutilizada.