Era uma noite quente. Depois de várias peripécias, nós, "caipiras de Bauru", em dois fuscas "lotados", conseguimos chegar ao desconhecido e afastado bairro de Interlagos. O dia ou ano, já não me lembro. Ficou na memória somente os doces momentos de amizade, o bulício da multidão já na espera e a sensação de curiosidade pela primeira disputa da Fórmula 1 em terras tupiniquins.
Nos ajeitamos pela arquibancada; nos fartamos de cachorros-quentes, refrigerantes e águas, e, na medida do possível, porque a excitação inibia o cansaço, ressonamos por ali, na dura pedra!
Veio o dia. Sol forte brilhou ao longe, demonstrando que a jornada iria ser tormentosa.
Vigor e alegria dos vinte e poucos, nada importava, a não ser a espera angustiante pelo ronco "bravo" dos motores que venceriam os desafios das pistas.
Lá pelas tantas, num benfazejo aparato, e liberando duchas de água gelada sobre os corpos suarentos, os bombeiros propiciaram uma espécie de carnaval, com os presentes celebrando entre gritos e cantos, numa dança sem ritmo ou coreografia.
Finalmente eles chegaram. Cores as mais destacadas; contornos os mais delicados e garbosos, os carros fizeram longo desfile pelo circuito. Em suas direções, Fittipaldi, "Wilsinho", Pace, Ronnie Peterson, Graham Hill, levavam ao êxtase a galera encantada.
Deu-se a largada, e tempo após - passou como um relâmpago ante os nossos olhos incrédulos, despontaram o campeão e os outros componentes do pódio.
Mesmo que o argentino Reutemann tenha ganho, a importância não foi grande. Tudo era alegria e diversão.
Hoje, passada quase uma vida, quando aquela gostosa aventura mora na lembrança, dói saber que, cercado pelos lucros exorbitantes - que, com certeza, já havia, porém não atinávamos - os dividendos políticos se imponham, e que dirigentes se empenhem em discussões estéreis, dispondo-se a gastar fábulas de necessário dinheiro para sua "guerra particular".
Tudo fomentado e aplaudido por um parlapatão Capitão.
Saudades da inocência de tempo que não mais volta!