Durante as noites frias, o zelador Jario Viana de Oliveira, de 46 anos, sempre passava no quarto do filho, Guilherme Mendonça de Oliveira, na época com 19, para desejar uma boa noite e ver se ele precisava de mais um cobertor. No entanto, há exatos três anos, o zelador vive com um vazio dentro do peito: o filho, o jovem estudante de Design Gráfico na Universidade de Mogi das Cruzes, foi uma das vítimas fatais do acidente envolvendo um ônibus fretado que levava estudantes para a casa, nas cidades de São Sebastião e Bertioga. O acidente aconteceu no quilômetro 84 da rodovia Mogi-Bertioga
(SP-98) e além do jovem, outros 17 estudantes e o motorista do coletivo, Antonio Carlos da Silva, na época com 37 anos, morreram.
Guilherme era filho único e sempre esteve ao lado do pai quando precisava. Todos os dias, saía de casa, no litoral, rumo a Mogi para cursar a graduação. "Cada dia que passa eu penso que já vai fazer três anos, mas parece que foi ontem. Todas as datas comemorativas, como aniversário, por exemplo, são muito difíceis e continuam me lembrando dele", contou Oliveira. A família ainda não foi indenizada pela morte do rapaz, apesar de que, para o pai, nenhum dinheiro o trará de volta. "Espero que não tenha mais essas negligências, eu sei que a Justiça falha, mas não tarda. Nenhum dinheiro no mundo vai trazer meu filho de volta, ele não estará presente fisicamente conosco", disse o pai.
A família de Guilherme ainda luta na Justiça para conseguir seus direitos. Apesar de o dinheiro não trazer o filho à vida, pode, pelo menos, auxiliar a família em tratamentos médicos. "Minha esposa até hoje usa remédios controlados, principalmente para dormir, até eu mesmo tomo às vezes. Foi um trauma gigante em nossa vida e todos os dias eu me lembro dele", afirmou Oliveira.
Outra família que também sofreu com a situação é a de Erick Pedralli, hoje com 24 anos. Ele é um dos sobreviventes do acidente e conseguiu se formar no curso de Engenharia Civil, apesar do trauma vivido. "Meu filho está bem, conseguiu terminar a faculdade, foi um dos únicos estudantes que continuaram estudando apesar do acidente. Quando fomos à formatura dele foi algo muito emocionante e hoje ele está aí, trabalhando e bem", disse o pai, o motorista Edemir Pedralli, 47.
Logo após o acidente, o pai de Erick saiu de casa e foi até o local na SP-98 onde o ônibus bateu em um rochedo. Por alguns instantes perdeu a esperança de que encontraria o filho com vida, mas recebeu a notícia de que ele estava bem. "Foi um choque, eu peguei o carro e saí correndo, quando cheguei lá ninguém sabia me informar, perguntava aos bombeiros e para enfermeiras se sabiam do meu filho, eu já estava vendo ele sair dali morto até que veio a notícia que ele estava vivo", lembrou. A família também está em processo na Justiça para conseguir indenização, mas ainda não foi beneficiada. "Gostaria que acertassem essa situação pra não acontecer mais nenhum acidente. Parece que até voltaram a usar ônibus velhos", finalizou.