As memórias do fatídico dia em que as mães receberam a notícia dos assassinatos dos filhos vieram à tona ontem durante o segundo júri popular das chacinas que aconteceram entre os anos de 2013 a 2016 em Mogi das Cruzes. O julgamento começou no início da tarde de ontem e foi encerrado no início da noite, mas continuará hoje a partir das 10 horas. Essas mães estiveram ontem pela manhã em frente ao Fórum de Braz Cubas para protestar, em ato organizado pelo grupo de apoio formado por essas mulheres, chamado "Mães Mogianas".
Os ex-policiais militares Fernando Cardoso e Vanderlei Messias Barros são acusados pelo Ministério Público (MP) pela morte de Rafael Augusto Vieira Muniz e Bruno Gorrera, em setembro de 2014. Mais uma vez, o grupo de mulheres que lutam por justiça pendurou faixas com fotos dos jovens assassinados nas grades do Fórum e, com sacos plásticos, fizeram a representação dos corpos chacinados na calçada.
A mãe de Muniz, a cuidadora Lucimara Aparecida Vieira Muniz, de 42 anos, lembrou que seu filho, morto aos 26 anos, deixou uma filha, hoje com 8 anos. "Na primeira semana foi muito difícil, minha neta era pequena e, quando foi ao enterro, achou que o pai estava dormindo. O tempo passou, ela cresceu e, quando caiu a ficha, acordou chorando", relembra Lucimara. Segundo a avó, a menina sente falta do pai, principalmente quando o dia do aniversário dela se aproxima, já que os dois faziam contagem regressiva para comemorar a data. "Eu sempre deixo a memória dele viva e ela fala que logo vai reencontrá-lo. Nada supre a falta dele, mas vamos seguindo", disse.
Para Lucimara, é esperado que o resultado do julgamento seja positivo e que "a justiça seja feita". "Estamos relembrando todo o momento de tristeza novamente, temos a expectativa de que eles (os ex-PMs) sejam condenados".
Relembre
O primeiro júri popular aconteceu no final de outubro do ano passado, quando o ex-agente Fernando Cardoso saiu absolvido do processo, o qual era acusado de ser o autor da morte de Matheus Aparecido da Silva, de 16 anos, e por homicídio tentado de outros dois jovens, na madrugada do dia 15 de novembro de 2013. "No primeiro julgamento havia bastante provas, mas a promotoria não se dedicou como deveria, tinha muitas falhas no processo, inclusive não colocaram que o Fernando (Cardoso) já tinha sido expulso da corporação", apontou a professora Inês Paz, professora de grande parte dos jovens vitimados nas chacinas, e que começou a se dedicar ao projeto Mães Mogianas em 2015. Para esse segundo julgamento, que começou a ser realizado ontem, a expectativa é outra. "Conversamos com os promotores que cuidam desse caso e eles estão bem empenhados. Nosso objetivo é sensibilizar o público, principalmente com a representação das chacinas na calçada (veja na foto)", contou.