Ao menos oito blocos devem desfilar pelas ruas de Mogi das Cruzes durante este Carnaval 2026. Eles foram inscritos na Prefeitura para a programação, iniciada no pré-carnaval no último fim de semana, que segue até terça-feira (17). Organizados de forma independente, os grupos mantêm viva a tradição do Carnaval popular em Mogi, preservando manifestações culturais, mobilizando comunidades e movimentando a economia, com blocos já consolidados, como o Coletivo Suburbloco Maracatu e o Bloco Combuca, no Centro, além de iniciativas mais recentes, como o Birifolia, em Biritiba Ussu.

Um dos blocos mais tradicionais de Mogi é o Suburbloco, que há quase duas décadas leva às ruas da cidade o maracatu de baque virado, manifestação cultural de origem pernambucana ligada à matriz africana e marcada pelo ritmo forte dos tambores. O cortejo é o braço carnavalesco do coletivo Suburbaque Maracatu, criado em 2008. O desfile deste ano acontece nesta sexta-feira (13), com concentração a partir das 18h30, e também na próxima terça (17), a partir das 16 h. A saída nos dois dias será em frente ao Centro Cultural (Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, no Centro). 

A organizadora Mônica dos Santos lembra que a ideia de formar o bloco surgiu no ano seguinte, em 2009, como forma de levar para o Carnaval o trabalho que já vinha sendo desenvolvido pelo grupo. Desde então, o Suburbloco saiu todos os anos, com poucas exceções, como o período da pandemia de Covid-19. 

O primeiro contato do coletivo com o maracatu, segundo Mônica, aconteceu por meio da música, especialmente de artistas como Chico Science e Nação Zumbi, que ajudaram a difundir o ritmo para além do Nordeste. Em Pernambuco, segundo ela, o maracatu está associado às comunidades e à religiosidade, e o trabalho realizado em Mogi busca respeitar essa origem, reproduzindo o ritmo com responsabilidade, por entender que se trata de uma manifestação cultural que remete ao passado do país e que precisa ser valorizada. 

A permanência do Suburbloco ao longo dos anos, segundo a organizadora, está ligada à resistência dos integrantes e ao compromisso de manter viva a tradição. O maracatu de baque virado trabalhado pelo grupo utiliza instrumentos como alfaias, bombos, caixas, agbê, agogô, gonguê e ganzá, além de uma apresentação própria que acompanha o ritmo. O grupo não se reúne apenas no período de carnaval: os estudos do maracatu acontecem o ano todo, nas tardes de sábado, no Largo Bom Jesus, no Centro de Mogi. 

Mônica afirma que os blocos não recebem verba direta da Prefeitura e que o suporte se concentra na parte estrutural, como fechamento de ruas e a presença de agentes de segurança. De acordo com ela, houve uma tentativa de diálogo com a Prefeitura neste ano, inclusive para tratar de demandas como a instalação de uma tenda para proteger os instrumentos em caso de chuva, mas não houve resposta as solicitações.

Bloco Combuca

Outro bloco com mais de uma década de atuação em Mogi é o Bloco Combuca, que surgiu em 2016 organizado pelo projeto cultural itinerante Combuca da Judite. O cortejo surgiu com a proposta de valorizar o Carnaval de rua e incorporar novos elementos à folia, como a arte circense, incluindo números como malabarismo, equilibrismo e acrobacia, afirma o idealizador e produtor do projeto, Vander Leonardo de Morais. 

Anualmente o bloco, que também traz o maracatu de baque virado, costuma ter apresentações no pré-carnaval, e já se apresentou no último sábado (7) em frente ao Centro Cultural de Mogi, no Centro.  Neste ano, o tema escolhido foi uma homenagem a Ogum e São Jorge, com alegoria temática e referências visuais. No ano anterior, eles celebraram os dez anos do projeto. 

Segundo o produtor, a proposta da Combuca da Judite é descentralizar a arte e levar atividades culturais para comunidades, incluindo áreas de vulnerabilidade social. "O Carnaval pra gente é uma grande festa, um momento de estarmos juntos, celebrando. A gente mistura os elementos que a gente gosta, kombi, arte, cultura, é um momento que a gente pode expressar", conta. 

Morais avalia que Mogi tem potencial para fortalecer ainda mais o Carnaval de rua:" Eu acho que Mogi está perdendo o bonde da história, pois os carnavais da capital estão cada vez mais cheios e Mogi tem feito um carnaval bonito e prazeroso, mas falta atenção do poder público". Segundo ele, a economia do Carnaval movimenta uma grande cadeia produtiva que envolve comércio, gastronomia, aluguel de fantasias e serviços diversos.

O produtor afirma que já houve editais com recursos para blocos de Mogi em anos anteriores, mas que nos últimos anos isso não ocorreu. Ele defende que o poder público amplie o diálogo com os organizadores e atualize regras que impactam ensaios e atividades culturais de rua.

Birifolia

Se alguns blocos mogianos carregam décadas de atuação, um dos que surgiram recentemente é o Birifolia, realizado em Biritiba Ussu. A presidente da Associação de Amigos do Bairro Boa Vista, Inês Aparecida Cardoso Miranda - que organiza a iniciativa - explica que a primeira edição ocorreu em 2024 e foi bem recebida pela população. Agora o bloco caminha agora para seu terceiro Carnaval, com desfile programado para domingo (15), com concentração a partir das 15h na rua Thiago Silvestre, s/nº e encerramento previsto para às 23h. A programação começará com marchinhas para o público infantil, e o show principal será às 20h. 

O bloco, segundo Inês, surgiu a partir da mobilização de moradores, comerciantes e parceiros locais, em conjunto com a liderança local de Sonia Aparecida Ramos, a Soninha Saúde. A presidente da Associação conta que a comunidade sempre quis ter um Carnaval próprio, mas faltava quem assumisse a organização. A partir da formação de uma comissão, o grupo buscou as autorizações necessárias junto à Prefeitura e passou a procurar patrocínios e doações no comércio local, que também tem um impacto econômico positivo com o desfile. 

O sucesso do grupo, que tem perfil familiar e busca resgatar o lado cultural do Carnaval, para Inês, está no fato de ser algo independente. "Temos sim a parceria com a Prefeitura, com Mobilidade, Segurança, Saúde, para fechamento de rua, e as coisas acontecerem, mas tudo que a gente consegue como o som e cantor, é custeado pela própria comunidade. A gente tenta fazer que cada vez mais o nosso Birifolia se torne uma ação muito familiar e que a gente traga esse lado cultural do Carnaval, um momento onde todo mundo é igual e que a gente precisa ser feliz também. No mundo que a gente vive, trazer alegria também é uma ação social”, diz.

Inês lembra ainda que a Associação atua desde 2003, com envolvimento em ações sociais, como aulas de balé e outras atividades comunitárias. Para ela, eles conquistaram o protagonismo na festa de Carnaval. “A cada ano nosso público só cresce. A divulgação vai indo mais longe e a gente sempre espera um público maior”, conclui.

Programação

Entre outros blocos confirmados em Mogi está o Cordão do Entruido da Vó, com concentração no sábado (14) às 18h no Largo do Rosário, seguindo pela Dr. Paulo Frontin até a praça Monsenhor Roque Pinto de Barros. O grupo voltará às ruas na terça-feira (17/02), na praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, às 21h, e circula pela região central até as 23h30. 

No domingo (15), estão programados dois blocos: Filhos de Yayá, com concentração às 16h e e encerramento às 20h, na Praça do Shangai, e Folia MogiCentro, das 17h às 23h30, também na praça Monsenhor Roque Pinto de Barros. Na segunda (16), a mesma praça no Centro receberá o Bloco Hip Hop - Dj Kriador & Cia, repetindo o horário do dia anterior. 

O Bloco Sem Freio se apresentará todos os dias de Carnaval em frente da Estação Ferroviária de Sabaúna, com programação no período da tarde e noite. O distrito também recebe apresentações da Bateria Sabaúna e Convidados. 

Galeria

Foto 1 - Bloco Combuca animou região central de Mogi, mesmo sob chuva - Divulgação/Evandro Maia 
Foto 2 - Membros do coletivo Suburbaque Maracatu se preparam para o Carnaval 2026 - Divulgação