Uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, a Portela vai contar na avenida as origens e a tradição do batuque, reconhecida como principal religião de matriz africana praticada no sul do Brasil. A história será contada no enredo O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande. O batuque (ou nação) forma com o candomblé (na Bahia), a Jurema Sagrada (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), o tambor de mina (Maranhão), a umbanda (Rio de Janeiro) e o Xangô de Pernambuco o altar das principais religiões afrobrasileiras. >> Enredos das escolas de samba contam a história não oficial >> Conheça os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio em 2026 >> Acompanhe a cobertura do carnaval na Agência Brasil Conforme o enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, o Principe do Bará seria o nobre Osuanlele Okizi Erupê, um líder religioso que no Brasil adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida. Osuanlele ou Custódio nasceu no Século 19 no golfo da Guiné (litoral ocidental da África) e morreu em Porto Alegre, capital gaúcha, na década de 30 do século passado. As datas exatas de nascimento e morte, e a própria origem nobre do Principe do Bará, são objeto de discussão entre historiadores e antropólogos, como indica estudo publicado pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Sul negro A despeito da controvérsia acadêmica, o samba-enredo da Portela quer “resgatar a tradição/ onde a África assenta”. O desfile da Portela lançará luz sobre dados que apresentam um Brasil que contesta o senso comum: conforme o Censo Populacional do IBGE (2022), há proporcionalmente mais pessoas praticantes ou devotas de religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul (3,2%) do que no Rio de Janeiro (2,6%) ou na Bahia (1%) "Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul”, detalha André Rodrigues carnavalesco da Portela em material distribuído pela escola. Atribui-se ao Principe Custódio um papel fundamental de mediação entre a população negra e as elites políticas gaúchas, como uma liderança religiosa protetora e depositária de conhecimentos e liturgias de cultos africanos. “Ele era uma das pessoas que possibilitou a consolidação dessa religião, deixando-a mais visível. Ela estava lá em Porto Alegre, mesmo que muitas vezes escondida nos bairros mais afastados. Ele serviu para legitimar de forma transparente uma realidade que existia dentro da cidade e que era mascarada por conta do grande fluxo de migração branca”, assinala a antropóloga Maria Helena Nunes da Silva em dissertação citada na publicação do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Estreante portelense O samba-enredo sobre o Príncipe Custódio terá como principal intérprete Zé Paulo Sierra, um portelense estreante realizando seu “sonho de infância”. “Meu pai era portelense. Eu morava num bairro chamado Abolição, onde minha mãe mora até hoje, e a maioria das pessoas eram portelenses ou imperianos. Nos anos 1980, quando eu comecei a me interessar por samba-enredo, me apaixono por um samba da Portela, que é o Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite, do David Correia e Jorge Macedo”, rememora. Foram inscritos 36 candidatos no concurso da Portela para escolha do samba com o qual a escola desfilará. Ganhou a composição assinada por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena. Zé Paulo Sierra defendeu o samba na fase das eliminatórias. “Eu sei cada detalhezinho desse samba”, diz confiante na sua participação no desfile da maior campeã do carnaval carioca que ocorrerá na noite de domingo, 15 de fevereiro. Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro 1º dia – domingo (15/2) Acadêmicos de Niterói - Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil; Imperatriz Leopoldinense - Camaleônico; Portela - O Mistério do Príncipe do Bará; Estação Primeira de Mangueira - Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra. 2º dia - segunda-feira (16/2) Mocidade Independente de Padre Miguel - Rita Lee, a Padroeira da Liberdade; Beija‑Flor de Nilópolis - Bembé do Mercado; Acadêmicos do Viradouro - Pra Cima, Ciça; Unidos da Tijuca - Carolina Maria de Jesus. 3º dia - terça-feira (17/2) Paraíso do Tuiuti - Lonã Ifá Lukumi; Unidos de Vila Isabel - Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África; Acadêmicos do Grande Rio - A Nação do Mangue; Acadêmicos do Salgueiro - A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau. Relacionadas Rio: Cordão do Boitatá estreia no circuito dos megablocos do carnaval Carnaval deverá injetar mais de R$ 5,7 bi na economia carioca