Mais uma vez nos aproximamos de uma eleição presidencial e o país, de certa forma, mantém um clima de polarização. Assim como foi em 2014, 2018 e 2022. Tal polarização traduz de forma muito clara, a oposição das agendas da esquerda e da direita/extrema direita do país.
Uma das últimas pesquisas divulgadas apontam que mais de 70% dos eleitores afirmam já ter seu voto definido. Para o Lula, 39,8%, para o Flavio Bolsonaro, 33,1%. Temos, pelo menos em tese, menos de 30% dos eleitores disponíveis para uma suposta terceira via. Lembrando que nesses menos de 30% estão aqueles eleitores que votam em branco ou anulam seu voto.
Mas não é só essa polarização que vem caracterizando o nosso país. Quando consideramos a forma como se distribui a renda e a riqueza produzidas aqui, podemos perceber o quanto esse processo distancia diferentes segmentos sociais do ponto de vista das condições de vida apresentadas por eles. A distância entre muito ricos e pobres expõe de maneira contundente a polarização social existente.
O Relatório Riqueza Global, publicado anualmente pelo Credit Suisse, traz um dado estarrecedor. Quase metade da riqueza no Brasil está em posse do 1% mais rico, o que coloca o país como o segundo mais desigual entre os dez que foram avaliados. Este foi o pior resultado do país desde o ano 2000.
Obviamente que essa concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos tem suas consequências práticas. Por exemplo: o Mapa da Desigualdade, que é um levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo, mostra que moradores de área nobre da cidade de São Paulo vivem em média 23 anos a mais que um morador da periferia. E estamos falando da cidade mais rica do país e da América Latina. Enquanto no bairro Alto de Pinheiros (zona oeste) as pessoas vivem em média 80,9 anos, em Cidade Tiradentes (zona leste) essa média é de 58,3 anos.
Estamos falando de um país onde, de acordo com a última Reforma da Previdência aprovada em 2019, para se aposentar por idade, o homem precisa ter no mínimo 65 anos e a mulher 62 anos. Ou seja, na prática, em segmentos mais vulneráveis, as pessoas morrem antes de atingir a idade mínima.
Enquanto não reduzirmos esse abismo que existe entre os poucos que são ricos e os muitos que são pobres, vamos continuar convivendo com a polarização no âmbito da política.
Afonso Pola (afonsopola@uol.com.br) é sociólogo e professor