Quando falamos de estatística, uma das definições muito usada é aquela que a trata como a arte de torturar os números até que eles confessem o que se deseja”. Obviamente trata-se de uma definição jocosa e não uma verdade absoluta. Sociólogo e pesquisador que sou, refuto tal definição, mas tenho que reconhecer que em algumas situações a frase se aplica, principalmente quando falamos de pesquisas eleitorais.

Trabalhei com pesquisa durante muito tempo, além de ter sido professor da disciplina “Metodologia Científica” por mais de 30 anos. Portanto, creio que tenho condições de opinar sobre o tema, sem o risco de recorrer a achismos.

Pois bem, o que indica a qualidade de uma pesquisa, é justamente a metodologia usada.  Por exemplo, quando se estrutura uma pesquisa de sondagem eleitoral, para que a metodologia seja adequada, o universo de pessoas pesquisadas (duas mil, três mil ou qual número seja) deve espelhar aquilo que o universo total apresenta como características. Faixa etária, sexo, local de moradia (cidade pequena, média e grande), escolaridade, renda etc., deve fazer parte do universo pesquisado com os mesmos percentuais presentes na sociedade.

Uma parte dos institutos de pesquisa que produzem pesquisas eleitorais já possui uma larga experiência nisso e, nesse percurso, foram aprimorando suas metodologias. Por mais que muitos desejam desqualificá-las, principalmente quando elas não traduzem o resultado desejado, elas retratam sim um momento, e são muito utilizadas pelas coordenações de campanhas para reorientar estratégias. Se assim não fosse, os marqueteiros de plantão não as utilizariam como farol.

No entanto, gostaria de fazer uma ressalva em relação as pesquisas que não são feitas presencialmente. Vários institutos que divulgam esses levantamentos estão usando a abordagem via celular. Mesmo reproduzindo percentualmente o peso de cada segmento nas abordagens aproveitadas, esse tipo de metodologia pode apresentar desvio bastante consideráveis.

E por quê? Bem, estamos falando de um país onde, de acordo com o IBGE, mais de 20 milhões de pessoas não tem acesso à internet ou telefone celular. O celular é o principal meio para navegar na internet, mas não é um bem de consumo universalizado, e seu uso configura um elevado custo para a maior parte da população brasileira.

E essas pessoas então mais concentradas nas regiões Norte e Nordeste. Fazem parte da população mais pobre e, por não terem acesso à internet e celular não participam dessas pesquisas. Números que podem provocar desvios importantes no resultado dos levantamentos.

 

 Afonso Pola (acelsopp@gmail.com) é sociólogo e professor