Nos primórdios da televisão no interior de São Paulo, a grande custo, meu avô conseguiu comprar um aparelho receptor. Novidade, ao cair da noite, até quando podia - eis que o noticiário e a novela que o seguia eram obrigatórios aos mais adultos -, assistia, quase que toda noite, um ou outro filme de aventuras, próprios para a idade.
Mais tarde, a TV Bauru Canal 2, passou a dividir espaço com sofríveis transmissões da TV Tupi, até que, com o aprimoramento de uma grande antena - comprada com a ajuda financeira popular - a imagem melhorou, e a grande rede tomou conta da cidade.
Nessas ocasiões, adorador do futebol, aproveitava a hora do almoço para, depois de ouvir a sermão de minha nona que exigia que comesse à mesa, depressa, ligava o aparelho para ouvir comentários esportivos.
Desfilavam, então, à minha frente, Valter Abrahão, Eli Coimbra, Geraldo Bretas, Juarez Soares, Flávio Prado, e outros, em debates acalorados, que prendiam a atenção.
Em uma dessas ocasiões - e as lembranças não dão trégua - Bretas se envolveu em polêmica, jurando raspar a cabeça se, num clássico São Paulo e Corinthians, o atacante tricolor, Mirandinha, marcasse. Para o seu azar, o atleta fez três gols, e o corte de cabelo defronte as câmeras foi dos assuntos mais assistidos, e discutidos, então.
Inexoravelmente, aos poucos, quase todos se foram, ganharam paragens mais tranquilas. Esta semana, unindo-se aos companheiros de outrora, Juarez Soares também nos deixou.
Com ele, embora o viés político posterior, convivi mais, eis que o segui, enquanto parceiro de Luciano do Valle, repórter da Rede Globo, e, mais recentemente, fazendo dupla com Silvio Luiz. Sua morte, além do sentimento que traz o momento, fez brotar um quê de saudade. Senti falta do velho sofá, da sala humilde, da pureza da criança, do carinho da mãe que zelava.
Sua morte, mais uma vez, traz a certeza de que o tempo passou célere, levando com ele quase todos os meus ídolos. Repouse em paz, China. Um dia, em um velho televisor, ei de ouvir os seus debates novamente.