Há cerca de uma semana, nas redes sociais, foi veiculado um trecho de uma apresentação de um humorista de palco. "Piadas para família" era o tema que conduzia a apresentação. Um jovem, com olhar e semblante próprios de um profissional da área, daqueles que, por si só provocam risos, sentado numa poltrona e destacado por um holofote, olha para o público e inicia suas palavras dizendo "A Escola em Suzano". Ouve-se, então, risos e gargalhadas da plateia.
A apresentação, pelo que pude entender, não ocorreu na região e, portanto, as pessoas que assistiam não podiam imaginar outra coisa senão comentários hilários, talvez, da rotina de uma escola qualquer. Foi o entendimento que preferi construir para afastar o incomodo inicial da reação pública.
Segue o humorista, o qual passa a citar um assunto que, ao contrário do título da apresentação, em nada tinha de conteúdo familiar, revelando um "humor ácido". Fez, então, menção ao atentado na escola, que todos sabemos, Raul Brasil, atribuindo a responsabilidade dos fatos às crianças por terem aceitado "balas" de estranhos e que, lá, na escola, levavam a sério a brincadeira de "vivo ou morto".
As "balas" a que fez referência, são aquelas que foram disparadas pelos criminosos e que, além de ferir várias pessoas, entre alunos e funcionários, ceifou a vida de cinco adolescentes e três adultos. Uma tragédia que abalou o país e que ainda assombra os sobreviventes, familiares e moradores da cidade. Considerações infelizes, semelhantes a tantas outras advindas do mesmo segmento e que faz emergir as discussões sobre os limites do humor.
Em que pese a conduta do humorista, o que também chamou a atenção, acentuando o sentimento de indignação, foi a reação do público, que, mesmo ciente de que a piada era construída em cima de um fato doloroso, com gargalhadas e aplausos, continuaram a reagir a tamanha insanidade. Os motivos, os mesmos que referendaram atrocidades no passado e, atualmente, dão força ao bullying, só os especialistas podem explicar.