Uma das maiores dificuldades encontradas na sociedade e no comportamento das pessoas que a compõem é a resistência natural às mudanças. Determinadas regras acabam institucionalizadas pelo tempo de prática e, em muitos casos, deixam de ser analisadas e avaliadas como processo evolutivo. O ser humano tem o péssimo gosto de se acomodar na zona de conforto e, com isso, impede qualquer iniciativa de transformação. O senso comum adota o expediente do "como está, fica" entendendo que, se as coisas estão bem, não há espaço para o novo.
Esse tipo de comportamento só é quebrado a partir da ação de alguns formadores de opinião que, pela posição privilegiada que ocupam, podem sugerir, ou impor, em determinados casos, a quebra de normas. O papa Francisco, por exemplo, anunciou ontem regras mais rígidas para obrigar padres e religiosos a denunciarem suspeitas de casos que envolvam abusos sexuais. A mensagem deixa claro que não apenas os episódios devem ser apontados, mas, principalmente, cobra das pessoas o abandono do conforto do silêncio e a responsabilidade de compartilhar informações sigilosas.
Em terras brasileiras, na quarta-feira, o ministro Luís Roberto Barroso relatou na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de validar aplicativos de transporte de passageiros que a proibição ou restrição da atividade "é inconstitucional por violação aos princípios da livre iniciativa e livre concorrência". A decisão promete abrir uma nova frente de defesa para as empresas de transporte por aplicativo e transformar uma inócua discussão regional em proposta sacramentada de modernidade.
As duas situações, uma de âmbito mundial e outra limitada ao território nacional, comprovam a ideia de que as mudanças são necessárias simplesmente porque mexem com práticas enraizadas. Nada é definitivo e qualquer iniciativa de transformação pode incomodar grupos acomodados. A evolução da espécie depende da capacidade de experimentar e de aceitar o moderno. Isso serve tanto para a milenar ortodoxia católica quanto para a visão parcial de mercado de trabalho e de prestação de serviço.