A mobilização popular do domingo passado em todo o Brasil, favorável ao governo de Jair Bolsonaro (PSL), ficou definida por contornos diferentes de outros movimentos que ocuparam as ruas nos últimos tempos. Para começo de conversa, serviu como marcação de território de um grupo radical de eleitores que está vendo o seu eleito completar cinco meses de um mandato conturbado, construído por poucas decisões efetivas e um rol de ações polêmicas, notadamente polarizadas. Mais com cara de campanha eleitoral, os manifestantes não têm uma causa em comum e utilizaram o momento para eleger adversários políticos e dar apoio, mesmo que confuso, a causas como a reforma da Previdência e o decreto da liberação do armamento.
Com isso, o resultado mais evidente do movimento foi colocar o governo em posição antagônica aos poderes Legislativo e Judiciário. Em várias capitais, os manifestantes gritaram palavras de ordem contra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e incitaram para o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) por meio da operação "lavatoga". Não faltaram críticas aos partidos de oposição, eleitos, há tempos, como os responsáveis pela onda de corrupção que cobriu o país. Bolsonaro, claro, tratou de usufruir dos dividendos do movimento pelas redes sociais, sua mídia-mor, mas, orientado por assessores, procurou amenizar o discurso de enfrentamento para não prejudicar ainda mais o seu governo.
Como todo processo de transformação política, a partir da saída de um modelo ideológico para a entrada de outro, o que se percebe é que ainda estamos na etapa da desconstrução, aquele que se caracteriza pela identificação dos pontos negativos e sua eventual eliminação. Somente depois desta fase, é que se começa a construir um novo modelo, melhor adaptado às instituições e eficaz no sentido de avançar pela conquista de resultados, configurado por um processo que demanda tempo, persistência e decisões corretas. Resta saber se o governo Bolsonaro possui esses ingredientes para garantir a sobrevida política ou se está caminhando, junto com seus eleitores, para a beira do abismo.