Desde a posse dos novos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, a proverbial disputa entre os dois Estados parece ter ganhado um novo e explosivo ingrediente. Bons tempos em que o bairrismo gerava acaloradas discussões em torno de "biscoito" e "bolacha", ou quando os paulistas apontavam para o próprio PIB como resposta à provocação fluminense de que o samba teria sido sepultado em terras piratiningas.
Estamos em outro nível, e a rivalidade agora se apresenta com tonalidade macabra. Contrariando os valores cristãos que seu partido de filiação (PSC) traz no nome, o governador do Rio, Wilson Witzel, saiu na frente ao anunciar, tão logo eleito, que a polícia do Estado iria passar a "mirar na cabecinha, e pum!". Já o governador paulista João Dória, filiado ao partido que defende nominalmente a social democracia (PSDB), sentindo o risco da desvantagem deu um jeito de logo proclamar: "A polícia vai atirar para matar".
Foi "sopa no mel", como dizem os cariocas. "Tranquilo", diriam os paulistanos. As forças policiais assimilaram prontamente a orientação e os registros de mortes em confronto que já apresentavam somas elevadas passaram a ser contados em escala de atacado. Num dos casos mais notórios, uma única investida do COE (Comando de Operações Especiais) carioca nas favelas de Santa Teresa resultou na morte de 13 pessoas. São Paulo reduziu a desvantagem na madrugada da última quinta-feira, quando 11 pessoas foram mortas em Guararema depois de participarem da tentativa de assalto a bancos na cidade. Em ambas as operações, felizmente não há registro de policiais feridos. Números da Corregedoria da PM paulista aos quais o jornal Agora teve acesso indicam que em março deste ano houve crescimento de 48% nas mortes em confrontos com policiais, comparado ao mesmo período do ano passado.
Será que o aumento da letalidade das polícias é a melhor estratégia para inibir o crime e defender a população? Esta é uma pergunta sincera.