É sintomático que o governo federal tenha acionado as tropas da Força Nacional para manter longe da Praça dos Três Poderes e da Esplanada dos Ministérios, o Acampamento Terra Livre, que reúne em Brasília, desde quarta-feira passada até hoje, comunidades indígenas de todo o país e do exterior. Em 15 anos de existência, o evento se firmou como um encontro pacífico, no qual os povos indígenas procuram dar visibilidade às suas pautas e trocar experiências.
Conversei com meu amigo, Osni Dias, jornalista, professor universitário, e militante da causa indígena, sobre as principais pautas da comunidade indígena brasileira atualmente. Ele me disse que a reinvindicação central ainda é pelo cumprimento do artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que reconhece o direito originário dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam, cabendo à União demarcá-las e protegê-las da exploração fundiária.
Mas há mais que isso, alerta Osni: as ameaças aos povos originários se intensificaram com os discursos do presidente criminalizando suas lideranças, com o sucateamento da Funai, com a flexibilização da posse de armas, com o descaso para com a conservação das florestas, com o avanço da atividade agropecuária na região amazônica. Está nos planos do governo extinguir a Secretaria Especial de Saúde Indígena, precarizando ainda mais o atendimento de saúde para essas populações. Tais ações são coerentes com o discurso do então deputado Jair Bolsonaro em 15 de abril de 1998, quando elogiou a cavalaria do Exército norteamericano por ter dizimado os índios daquele país. Osni fala com propriedade, pois, além de acompanhar de perto a luta dos povos originários, tem ascendência indígena em linhagem muito mais próxima que a maioria de nós.
É revelador, portanto, que o governo federal tenha montado "preventivamente" um forte aparato repressivo, sem que houvesse no horizonte qualquer ameaça de violência. Quem promove pilhagem sabe que em algum momento será cobrado por isso.