Um saudoso amigo, o Nelson, carioca da gema, e militar da reserva, dando vazão ao seu espírito hilário, dizia que para identificar um espião estrangeiro entre nós, bastava se atirar contra ele uma bola: se não "matasse no peito" e a levasse ao solo, podia se prender.
Houve um tempo em que, realmente, sua brincadeira tinha razão de ser. Apaixonado pelo jogo da bola, o brasileiro, que via desfilar nas tardes de domingo, ante seus olhos incrédulos, jogadas sofisticadas, propiciadas por uma plêiade de craques, respirava o futebol.
E não parava aí. No dia sequencial, entre um cafezinho e outro, discutia a não mais poder os momentos controversos do jogo. O sabor dos embates, normalmente superava o da bebida.
Na atualidade, numa pindaíba que dá gosto; vivendo de raros valores que, garimpados nos campos juvenis, dão as caras por tempo rápido, eis que, quase que de imediato, são contratados para se exibirem em outras praças; alicerçando-se em veteranos que, desprezados pelos europeus ainda encontram espaços em nossas combalidas equipes; o futebol perdeu espaço, e com ele o público que garantia a alegria dos estádios.
E não só isso. Também as sadias diversões do pós-jogo foram dominadas pela crescente tecnologia que, pouco se importando com o torcedor, reservou-se os destinos das partidas.
E, nesse trilhar, apareceu o tal do VAR, geringonça que permite, a todo instante, a paralisação da contenda, para que o árbitro, pouco confiante em si, e cedendo à constante pressão, se conscientize sobre um ou outro lance. Gols comemorados mais de uma vez, ou frustração da torcida ante o balde d'água atirado sobre sua alegria, transformaram-se em constantes. A parafernália, bem a gosto dos ianques, ante sua precisão, nega o direito do debate futuro.
Do jeito que a coisa anda, quem sabe, guarde-se ao burocrático estrangeiro o gosto pelo futebol, e sejamos obrigados a reconhecer, no futuro, como espião, aquele que tenha excepcional domínio da bola.
Mais um prazer que nos foi tirado pela modernidade.