Há, nitidamente, método, na loucura que os pronunciamentos do presidente da República e de seus auxiliares revela. Longe de mera expressão de mentes incapazes de compreender o contexto social, os disparates cumprem função prática e vão dando sobrevida ao grupo que chegou desnutrido ao poder pela incapacidade para elaborar um projeto que viabilize o país.
Na véspera de completar quatro meses, o governo não apresentou sequer uma pauta propositiva. Nas manifestações mais recentes (até o momento em que este texto estava sendo produzido), o presidente censurou um filme publicitário do Banco do Brasil cujo mote central era a diversidade - e, ao fazê-lo, atacou a comunidade LGBT e expôs as mulheres brasileiras como ativos prontos para serem explorados por turistas estrangeiros interessados em sexo. No dia seguinte anunciou, logo cedo, que pretende reduzir a verba dos cursos de Filosofia e de Sociologia das universidades federais, por considerá-los pouco úteis - ao contrário da Veterinária, da Engenharia e da Medicina, citadas nominalmente como áreas capazes de gerar retorno imediato à sociedade.
Será que o capitão presidente, cuja formação em Paraquedismo pode ser obtida em seis semanas de curso na Brigada de Infantaria Pára-quedista (sic), sabe que a Engenharia se fundamenta na abstrata Matemática e na Lógica, ambas disciplinas da Filosofia? Que a Sociologia contribui mais decisivamente para a definição de políticas públicas para a saúde do que a Medicina? Que se não fosse a Filosofia os sintomas das doenças que afetam humanos e animais ainda seriam tidos como consequência de feitiços ou de castigos divinos?
Pouco importa que ele saiba, ou não, essas coisas. Ao propalar teses tão exóticas, que depõem contra sua própria sanidade mental, o presidente sequestra o debate e obtém da sociedade certa complacência que lhe permite dar seguimento às pautas destrutivas. Que fique claro, portanto: há método nessa loucura.