Doutas cabeças, sob adequada onipotência, afirmam que a realidade é geométrica. Correntes científicas, religiosas, míticas e até místicas não deixam por menos: vive-se uma realidade eminentemente geométrica.
Formas as mais arrojadas campeiam em tudo o que se vê. Formas complexas, com origem no ponto, o mais rudimentar elemento na hierarquia geométrica. Ponto aquele que não tem partes ou o que não tem grandeza alguma, para Euclides. Para os que já se esqueceram: o pai da geometria, como é conhecido, e à custa da qual se confecciona a tralha que invade nossa vida para facilitá-la e torná-la mais interessante.
Dentro da mesma esclarecedora linha de Euclides: linha é o que tem comprimento, sem largura. Depreende-se daí que o geômetra quis fazer sombra a Ovídio em termos de imagem poética. Nossas suspeitas confirmam-se ao supor que, as extremidades da linha são pontos e que a linha reta é aquela que está posta igualmente entre suas extremidades e superfície é o que tem comprimento e largura. Comprimento e largura, sem o querer, fazem da superfície uma imagem onírica que nos intriga. E, não seria essa a intenção do ilustre grego?
Para invalidar, o que afirmo, rebate: as extremidades da superfície são linhas e superfície plana é aquela sobre a qual se assenta toda linha reta entre dois pontos quaisquer, sem estarem direitura uma com a outra. Para o estudante habituado à assepsia da mente, em termos de imagens que provoquem desafios, um prato indigesto.
Agora, na dança entre linhas, Euclides prevê que algumas caem sobre as outras. Quando uma linha reta caindo sobre outra linha reta, fizer com esta dois ângulos iguais, cada um destes ângulos se chama ângulo reto e a linha sobre a qual cai é a perpendicular. Quer-nos parecer que a tradução do original grego para o português não foi lá muito feliz, sem impedir aceitar a sugestão da frase final e circular por entre a realidade geométrica com um sorriso equilátero nos lábios já que: duas quantidades que se ajustam perfeitamente uma à outra são iguais!