Aprendi com a docência que os conceitos são mais facilmente assimiláveis quando ilustrados por situações concretas. Dificilmente as dimensões desse artigo serão suficientes para explicar o significado da expressão "racismo estrutural" - se é que eu, que não sofro seus efeitos, tenho capacidade para discorrer sobre essa perversidade.
Dois fatos noticiados nesta semana sem destaque na Imprensa fazem muito mais para esclarecer a questão do que qualquer livro ou discurso: em Salvador (BA), um microempresário se dirige à agência bancária onde mantém conta para obter explicações sobre o sumiço de certa quantia no seu saldo. Os gerentes o ignoram completamente, fazendo com que ele permaneça por mais de quatro horas dentro da agência, sem atendimento adequado. Como os funcionários não apresentam motivos para o desaparecimento do dinheiro, o cliente decide chamar a PM disposto a denunciá-los por furto. Quando os policiais chegam, o gerente diz que só irá à delegacia se o cliente for conduzido algemado. Perplexo, o cliente tenta se justificar dizendo que é a vítima da história, mas logo um policial lhe aplica um golpe "mata-leão", imobilizando-o. Trata-se de um homem negro.
O outro caso, ocorrido no interior de São Paulo, apareceu numa sentença condenatória por latrocínio, na qual após a identificação do autor do crime por testemunhas, a juíza Lissandra Reis Ceccon, da 5ª Vara Criminal de Campinas, escreveu: "Vale anotar que o réu não possui o estereótipo padrão de bandido, [pois] possui pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido". Se tivesse pela escura, aí sim preencheria o estereótipo de bandido, na opinião da juíza.
Quando um homem negro é agredido por um policial a quem pediu proteção, e uma representante do Judiciário declara em documento público que bandido branco é uma exceção, fica claro para qualquer pessoa - assim espero! - que na nossa sociedade o racismo permeia as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares.