Chega um momento em que, diante da brutalidade dos fatos, só resta pedir paz. As explicações precisam ficar para depois, porque a emoção é péssima conselheira e pode abrir passagem a uma enxurrada de opiniões irrefletidas que em nada contribuirão para acalmar o espírito e cicatrizar as feridas da alma.
Não é demais dizer que o país sangra através de Suzano, assim como continua sangrando através de Brumadinho, de Marielle, dos quase 64 mil assassinatos ocorridos em 2018, dos 367 policiais mortos no mesmo ano, dos 1.133 feminicídios notificados em 2017. Estamos tão profundamente mergulhados na violência que os discursos pós-tragédia têm que ser de paz. É necessário clamar e agir em prol da paz. Todos os esforços têm de ser empreendidos para neutralizar a sanha destruidora que parece ter tomado conta do país. Há que se tomar cuidado com a fala, pois, ensina-nos a sociolinguística, os discursos são performativos.
Lamentavelmente os discursos que banalizam a vida estão presentes por toda parte. Dos programas policialescos da TV, que apresentam a má sorte alheia como espetáculo vespertino, ao gesto do então candidato Jair Bolsonaro (PSL), que do palanque simulou o fuzilamento de seus opositores, um cardápio macabro de desvalorização da vida desfila diariamente ao alcance dos olhos e ouvidos de todos. A glamourização do ato de matar ocorre em ambiente mais restrito, normalmente em fóruns específicos na web profunda acessíveis para quem quiser encontrá-los. Nossa única chance, como sociedade, consiste em tornar os discursos de paz mais frequentes e mais intensos que as falas que transmitem ódio.
Que fique bem claro que a opção pela paz não coaduna com rendição diante de quem semeia ódio e intolerância para se locupletar com a insegurança da sociedade - estratégia desprezível ilustrada pela sugestão de que os professores deveriam portar armas. Não, senhores senadores, deputados e presidente, não precisamos de mais armas. Precisamos é de reconquistar a nossa paz.