A vitória da Estação Primeira da Mangueira, com um samba-enredo em homenagem aos "heróis de barracões", aqueles que, mesmo diante das adversidades, lutaram para preservar a história, a essência, a liberdade e a plenitude de uma nação, representa muito mais que um título de campeã de Carnaval do Rio de Janeiro. A letra, intitulada "Histórias para ninar gente grande", faz uma homenagem a Marias, Mahins, Marielles e um tributo a Lecis e Dandaras ao destacar um Brasil que ainda resiste e luta para o combate à discriminação, ao preconceito, à igualdade de gênero, às desigualdades, à falta de diálogo e entendimento com relação ao outro.
Vencedora pela vigésima vez, a Mangueira levou à Marquês de Sapucaí um hino que trouxe índios, negros, pobres e mulheres fortes, como a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, cujo caso até hoje não foi desvendado. A composição reflete uma realidade estampada pela violência, que se tornou corriqueira, e, mesmo assustadora, ainda vem devastando a história, sem soluções para tamanhas atrocidades divulgadas no dia a dia. E este cenário não é de hoje, tal como esboça a letra no seguinte refrão: "Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento. Tem sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos. Eu quero um país que não está no retrato".
Os refrões impulsionam a uma reflexão para a trajetória de um país cuja história está sendo camuflada, rebuscada e retirada dos livros. É uma letra que merece ser discutida, e não censurada pelos que são incapazes de lidar com o outro, as diferenças, a inclusão, a liberdade de expressão e visões ampliadas de mundo em constante turbulência. Não importa se a pessoa é mulher ou homem, a ideologia que semeia, a profissão que segue, a posição social que possui, e sim se está disposta a lutar ou não pelo bem comum. Que o som do tamborim continue ressoando, e, ao fundo, semeie a esperança de um país mais justo, solidário, inclusivo e democrático. Um país de multidões coloridas marcadas pelo respeito de uns aos outros.