A infelicidade bateu à porta do brasileiro, entrou e se instalou. Uma pesquisa mundial realizada pelo Instituto Gallup, intitulado "Relatório Mundial da Felicidade", mostra que em 2018 o nível de felicidade no país atingiu o ponto mais baixo da série histórica, iniciada em 2006. No Brasil, a infelicidade está relacionada à redução do poder de compra das famílias, ao medo da violência e à desconfiança em relação às instituições. O fenômeno já foi detectado nos consultórios médicos e de psicoterapia.
Senti o impacto da notícia sobre a infelicidade ao ouvir o relato de uma professora que todos os anos propõe aos seus alunos uma atividade que consiste na descrição de um país imaginário com as cinco principais regras desse país. Conta a professora que, ao invés de "países" denominados "Mundo Mágico" e "Sorvetelândia", tão frequentes no passado, neste ano se destacou um lugar imaginário chamado "Armalândia", cuja bandeira mostra uma pistola em posição de tiro. Uma das regras de Armalândia diz que "todo mundo tem que usar armas".
Para desalento de quem ainda não se deixou levar pela insensatez, Armalândia está em vias de se tornar real. A apologia à posse de armas feita pelo presidente e pela bancada da bala, que semeia o terror do qual a indústria armamentista se alimenta, começa a produzir frutos. No shopping de Mogi das Cruzes, a loja que durante pelo menos uma década abrigou uma livraria agora é ocupada por um stand de tiros. A mudança é sintomática do momento atual, em que a leitura e a busca do conhecimento são alvo de desprezo inclusive por parte das autoridades que deveriam promovê-las, e o preparo para a agressão se torna atributo desejável. O encolhimento do setor de livrarias e a expansão das atividades ligadas a armamentos ocorre no país inteiro.
Não chega a ser surpreendente, portanto, estarmos no fundo do poço no quesito felicidade. Uma sociedade que prefere armas em lugar de livros caminha a passos largos para longe do
contentamento.