A decisão da Ford de encerrar as atividades da fábrica em São Bernardo do Campo, anunciada na semana passada, com a dispensa de cerca de 3 mil funcionários até o final deste ano, serve de alerta para o setor industrial na região. Segundo informações da empresa, o fechamento se deve pela necessidade de "retomar a lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul". A Ford alegou para a decisão o acúmulo de prejuízos entre 2013 e 2018 da ordem de R$ 4,5 bilhões. Isso significa que, por maior potência, estrutura e tradição que possua uma indústria, ela jamais terá a segurança completa e vai conviver com riscos iminentes o tempo todo.
Heny Ford (1863-1947), fundador da indústria norte-americana de automóveis, foi o precursor da chamada revolução industrial de segunda geração ao introduzir a linha de produção em série. Sua teoria, conhecida no meio acadêmico como "fordismo", serviu de parâmetro para o setor. Hoje, o modelo já está superado e a indústria vive o estágio 4.0, baseado na automação da produção. Independentemente da evolução tecnológica nas fábricas e da genialidade de seus fundadores, o que ainda determina a saúde das empresas é a questão econômica. Sem a rentabilidade financeira, ninguém consegue, pelas vias normais, sobreviver no mercado, e isso pode ser exemplificado pelo caso da Ford.
Mesmo com os números crescentes na abertura de postos de trabalho, conforme tem divulgado com entusiasmo o Centro da Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), o momento econômico ainda não permite arroubos de otimismo. As indústrias da região devem estar preparadas e ter como regra a constante atualização, com investimento em novas tecnologias, pesquisa de materiais e técnicas mais sustentáveis e incentivo à especialização pessoal. As universidades também precisam estar antenadas na dinâmica das mudanças e atualizar seus programas para atender o mercado. Não há garantias de que a combinação de ações seja suficiente para atingir a estabilidade, mas certamente devem garantir fôlego. Por mais que Ford tenha sido visionário, ele não foi capaz de prever saída para a economia estagnada.