O primeiro dia de fechamento da fronteira entre Brasil e Venezuela terminou com um saldo de dois mortos e 15 feridos, dos quais cinco foram transportados para Boa Vista. O líder opositor venezuelano, Juan Guaidó, criticou o episódio. Hoje, a oposição deve tentar entregar toneladas de ajuda humanitária na fronteira brasileira e colombiana.
Apesar da violência do lado venezuelano, militares brasileiros avaliam que a movimentação na fronteira é normal e esperam que a situação se acalme nas próximas semanas. Há um temor, porém, de que o fechamento prejudique a estabilização do fluxo migratório obtida nos últimos meses com a Operação Acolhida. Sem poder entrar pela passagem oficial, os refugiados tendem a buscar trilhas na fronteira seca, as chamadas "trincheiras", como ocorreu ontem em Pacaraima.
"Com a fronteira fechada, deve aumentar o número de venezuelanos que entram no Brasil sem passar pela triagem na fronteira", avaliou o tenente-coronel Alyson Mendonça. "Com isso, a demanda deve aumentar muito também e essas pessoas não necessariamente passarão de cara pela Operação Acolhida", disse.
Desde 2016, mais de 130 mil refugiados entraram em Roraima. O impacto em um dos Estados mais pobres do Brasil foi imediato. Os serviços públicos chegaram perto do colapso. As praças de Boa Vista e as pequenas ruas de Pacaraima foram tomadas por venezuelanos que fugiam da fome, sem trabalho ou lugar para ir, e passaram a recorrer a bicos e à mendicância. Com o tempo, a xenofobia aumentou, provocando confrontos entre brasileiros e venezuelanos.
Ontem, a fronteira entre Brasil e Venezuela amanheceu fechada. Um posto de cavalaria da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), em Santa Elena de Uairén, foi bloqueado e impediu que moradores da cidade atravessassem para Pacaraima.
Na comunidade indígena de Gran Sabana, nos arredores de Santa Elena, soldados venezuelanos abriram fogo contra civis que tentavam manter uma trilha aberta na fronteira seca - duas pessoas morreram. Após o ataque, uma ambulância venezuelana, acompanhada de uma médica, teve a passagem liberada na fronteira para buscar atendimento, primeiro em Pacaraima, depois em Boa Vista.
A primeira vítima foi identificada como Zorayda Rodríguez, de 42 anos. O segundo morto é Rolando Garcia, que seria marido de Zorayda. Após o ataque, houve confrontos entre policiais e moradores da cidade, que teriam sido reprimidos com bombas de efeito moral. "A maior parte das pessoas apoia a ajuda humanitária e queremos a nossa fronteira aberta", disse a porta-voz da comunidade indígena, Carmen Elena Silva. "Isso é ajuda, não é guerra", sentenciou.
Os cinco feridos foram atendidos no Hospital Geral de Boa Vista. Três passaram por cirurgia para ferimentos a bala e outros dois foram internados no centro de traumatismos, segundo a Secretaria de Saúde do Estado.