Oficialmente, o ano letivo começa amanhã para os estudantes da rede estadual de ensino, o que não significa que os alunos voltarão às aulas, afinal, retornar à rotina em plena sexta-feira, segundo os jovens, não parece uma boa ideia. Aquele recomeço lento e gradual, com as crianças desabituadas a acordar cedo, traz neste ano um componente enigmático, que promete mexer com os ânimos de muita gente: há no poder um novo governo, que enxerga a Educação com olhos mais rigorosos e acredita no endurecimento das regras para recuperar o que imagina ser a linha promissora do ensino, a chamada escola sem partido, sem ideologia.
Um dos cavalos de batalha durante a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o sistema educacional no país terá certamente uma atenção especial. Pela forma de raciocinar do capitão da reserva, a Educação teve uma autonomia exagerada nos governos anteriores, tanto do PT quanto do PSDB, o que a levou à perda de seu sentido primário, o de educar, de acordo com sua própria interpretação. Esse desvio precisa ser corrigido, como prometeu Bolsonaro. Mas a tarefa não deve ser tão simples e imediata assim.
O Ministério da Educação, agora comandado por Ricardo Vélez Rodríguez, passa a ter um peso diferenciado, bem mais como órgão regulador do que como instituição responsável pela edificação do pensamento. Nesta semana, por exemplo, Rodríguez deu uma entrevista afirmando que o conceito de universidade para todos "não existe" e que ela deve ser exclusiva para a "elite intelectual". Com isso, fica evidente que o incentivo proposto ao ensino técnico, como defende o presidente, é um retorno à premissa militar de restringir o ensino universitário a uma classe privilegiada.
Dentro do ministério, porém, existem muitos funcionários de gestões anteriores, que ainda detêm poderes de decisão contrários à essa filosofia reguladora. Como a pasta é formada por diversos departamentos independentes, isso significa divergências à vista. Na volta às aulas, os estudantes terão bem mais assuntos para discutir do que as divertidas aventuras das férias.