O decreto que flexibiliza a posse de armas no Brasil foi assinado ontem pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) em Brasília. A medida era promessa de campanha do então candidato e acabou ganhando vários simpatizantes durante a corrida eleitoral. A justificativa de Bolsonaro durante a assinatura do decreto era a de que o cidadão tem direito a própria segurança e que a flexibilização da posse irá ajudar a diminuir o índice de assassinatos no país.
Esta última declaração do presidente não encontra respaldo em um estudo que abrangeu a primeira década desde a implantação do Estatuto do Desarmamento, em 2004. De acordo com um levantamento feito em 2014 pelo "Mapa da Violência", entre os anos de 1980 e 2003, quando não existia o estatuto, a taxa de crescimento dos homicídios no Brasil era de 8,1% ao ano, após a regra entrar em vigor, a elevação baixou para 2,2%. Ainda segundo o "Mapa da Violência", 133 mil vidas foram salvas com a implantação do estatuto. Na época da pesquisa, ainda foi revelado que o número de assassinatos de brancos caiu 26,1% e o de negros teve queda de 46,9%.
É importante ressaltar que o decreto flexibiliza a posse dentro das propriedades, sendo que é possível, dependendo do caso, manter até quatro armas para cada cidadão. No entanto, não é difícil imaginar que muitos aproveitarão para desfilar com o artefato pelas ruas.
Ao afirmar que a posse de armas deve diminuir o número de homicídios no Brasil, o presidente mostra, uma vez mais, que não se importa com números e dados utilizados em levantamento de institutos sérios, que usam metodologia para conseguir chegar em cálculos confiáveis. Isso já havia ocorrido antes mesmo de ele assumir o cargo, quando disse que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) precisaria mudar a metodologia para calcular o número de desempregados no Brasil.
Se não consegue dar créditos a estudos de respeito, Bolsonaro terá dificuldades em seguir metas de outros setores do governo e sua gestão poderá dar sinais de fraqueza ainda neste ano.