As diferenças demonstradas na cobertura da Imprensa no início do governo Bolsonaro (PSL)traduzem como há nuances nas relações da mídia com o poder. Numa das extremidades, por exemplo, a Folha de S.Paulo, sempre embasada em sua ideologia declarada de autonomia de todos os setores, sejam políticos ou comerciais, optou por um jornalismo investigativo, revirando a vida, notadamente a financeira, da família do presidente. Nesta linha de atuação, tem denunciado a movimentação imobiliária do senador eleito pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, filho de Jair.
O Grupo Globo, que inclui a rede de emissoras de televisão e o jornal impresso carioca, segue na mesma trilha da Folha, mas com um pouco menos de intensidade. Não deixa de noticiar, porém sem a agressividade da denúncia. Por sua vez, o tradicional jornal O Estado de S.Paulo tem se limitado à relação dos fatos, evitando aprofundá-los.
Na outra extremidade, a Rede Record, declaradamente simpatizante ao atual governo, tem servido de palanque político e social para os Bolsonaro. No programa Domingo Espetacular, duas entrevistas chamaram a atenção. A primeira, com Flávio Bolsonaro rebatendo todas as acusações reveladas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre suas movimentações financeiras. A segunda, com a primeira-dama Michelle Bolsonaro revelando detalhes de seu discurso de posse, em Libras, e abrindo a "casa" da família, no Palácio do Alvorada, para o público. Com forte apelo emocional, a proposta de passar uma imagem positiva e exemplar da família está funcionando.
O presidente da República, nestes primeiros 20 dias, se comportou de forma tranquila em relação à Imprensa e evitou qualquer declaração mais contundente para não se indispor com a mídia. Estrategicamente, Jair Bolsonaro deixou que seus ministros se exponham com ações nem sempre agradáveis e ainda não precisou sair em auxílio de ninguém. Até mesmo o caso da investigação de seu filho não despertou nenhum tipo de pronunciamento. Se a Imprensa, ou pelo menos parte dela, está tentando provocar Bolsonaro, não está conseguindo sucesso.