O controle da comunicação pública e das manifestações artísticas é um prólogo corriqueiro nas cartilhas do autoritarismo que revela o quão covardes esses regimes tendem a ser.
As variadas formas adotadas para suspender o debate e calar a opinião pública têm como objetivo final evitar a dissensão e garantir que apenas a visão e o discurso oficiais tenham vez no espaço público. Para esta finalidade, promulgam-se leis e baixam-se decretos, ou, abrindo mão dos atalhos, espanca-se a interpretação das leis e das normas para que estas deem ao censor ao menos uma camada de legitimidade.
Em Suzano, na segunda-feiura passada, um agente do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) impediu que um jornal da região apurasse matéria sobre as condições da rodovia Índio Tibiriçá (SP-31). A equipe de reportagem foi expulsa para fora da rodovia e notificada. Em nota, o DER justificou a medida como zelo pela segurança, sem explicar, contudo, por que os agentes não adotam o mesmo critério com motoristas que trafegam na rodovia em velocidade acima da permitida, por exemplo.
No Rio de Janeiro, um dia antes, o governador Wilson Witzel (PSC) proibiu a performance "A voz do ralo é a voz de Deus", que seria realizada na Casa França-Brasil pelo coletivo "És Uma Maluca", com referências à tortura de prisioneiras políticas durante o regime militar iniciado em 1964. Dessa vez, a norma espancada foi aquela segundo a qual o Estado precisa ser informado previamente sobre o que vai ser realizado dentro de um órgão público. O coletivo informou que faria a performance, mas deixou de apresentar o roteiro. Agora vejam: se fosse uma ação religiosa, os organizadores precisaria submeter previamente o roteiro para avaliação do Estado? Não, evidentemente. Bastaria informar tratar-se de um ato religioso, assim como o coletivo informou tratar-se de uma performance artística.
O apelo à censura revela o quanto a livre circulação de ideias e a liberdade de pensamento amedrontam governantes com tendências autoritárias.