Primeiro percebi o retorno das crianças que pedem dinheiro nos semáforos. Depois observei a mudança no perfil dos ambulantes do trem, com a chegada de mulheres e homens em idade de aposentadoria apregoando timidamente guloseimas e quinquilharias de um real. Por fim, a ocorrência cada vez mais frequente de pessoas pedindo comida no portão da minha casa. As evidências são claras: a pobreza e a miséria estão voltando aos níveis dos anos 1990.
Desde um ano atrás as manchetes alertavam: "Crise leva meio milhões de volta ao Bolsa Família", publicou "O Globo" em fevereiro de 2017. Em setembro do mesmo ano, voltou à carga: "Crise pode levar o Brasil de volta ao Mapa da Fome". Nada foi feito, e a quantidade de pessoas incapazes de prover o próprio sustento segue aumentando.
Com a proximidade do Natal, indivíduos e instituições religiosas tendem a se envolver em iniciativas de distribuição de refeições e cestas básicas, num exercício louvável, repito, de solidariedade. É paradoxal, contudo, que muitos dos que hoje fazem doações, nas eleições passadas preferiram um programa objetivamente contrário a políticas públicas que, se mantidas e ampliadas, poderiam erradicar de vez a miséria. Em 24 anos essas políticas fizeram a fome crônica recuar de cerca de 15% de brasileiros atingidos em 1990 para 1,7% em 2014. Os números são da FAO, agência da ONU dedicada à alimentação e à agricultura.
Para o ativista Herbert de Sousa, o Betinho, falecido em 1997, célebre pelo combate à fome, a pobreza e a miséria não podem ser vistas como fenômeno natural, comparável à brisa da tarde ou ao amanhecer de cada dia. Antes, devem ser encaradas pelo que são: resultado das escolhas da sociedade, e, portanto, produção humana. Em 1994 ele bradou na ONU que "a pobreza e miséria são, antes de tudo, um problema ético".
Que neste Natal nos dediquemos à solidariedade e que nossa ética se construa como barreira inabalável contra o avanço da miséria.