A edição 2018 do Mapa da Desigualdade, organizado pela Rede Nossa São Paulo, informa que quem mora em Cidade Tiradentes, na capital, vive em média 22 anos menos que os paulistanos de Perdizes. Como a distância entre os bairros é de 36,7 km, descubro que a cada quilômetro na direção da periferia vive-se em média 7,2 meses menos.
Supondo que a maioria das pessoas que vive em Cidade Tiradentes se mudaria para regiões mais bem assistidas da cidade, se pudesse, e que lá permanece por falta de opção, conclui-se - ainda que provisoriamente -, que as diferenças entre os bairros expressam a injustiça social predominante em nossa sociedade. Por injustiça social me refiro à ausência de acesso a renda, bens e serviços em quantidade e qualidade que garantam a dignidade humana.
Os números dão sustentação à tese: enquanto em Cidade Tiradentes mais de 30% da população vive em alta ou muito alta vulnerabilidade social, em Perdizes o índice é zero; em Cidade Tiradentes, para cada grupo de 100 mil habitantes, de 40 a 80 jovens com idades entre 15 e 29 anos são assassinados anualmente, enquanto em Perdizes o índice é zero; enquanto em Perdizes há até seis empregos formais por habitantes do bairro, em Cidade Tiradentes o índice máximo é 0,99; se para os moradores de Perdizes há cinemas, museus e salas de concertos, em Cidades Tiradentes equipamentos culturais dessa natureza são inexistentes.
É indefensável, diante dos números, a ideia segundo a qual com dedicação e foco qualquer pessoa pode se dar bem na vida. Considerando, entre outros fatores, que 17% dos moradores de Cidade Tiradentes gastam mais de quatro horas diariamente para ir e voltar do trabalho e/ou da escola, contra 5% em Perdizes, não é necessário muita capacidade dedutiva para entender que a vida na periferia é muito mais difícil do que nos bem estruturados bairros centrais da capital paulista.
Ainda assim há quem seja capaz de defender a tal da meritocracia.